
A intervenção vinha há muito sendo preparada, no quadro do plano de controle político, pelos EUA, de toda a região que vai do Mediterrâneo Oriental até ao Sudeste Asiático.
Em 8 de novembro de 2002, os EUA ainda haviam conseguido fazer passar por unanimidade uma resolução do Conselho de Segurança que “oferecia” ao Iraque uma última oportunidade para satisfazer os seus compromissos de desarmamento e, em particular, para fornecer informação exata e completa sobre os seus programas de desenvolvimento de armas de destruição maciça e de mísseis balísticos (exigida pela resolução 687 de 1991!).
Mas em março de 2003 essa unanimidade não existiu.
Em 22 de maio de 2003, a resolução 1483 faz o levantamento de sanções (a um Iraque cuja soberania havia sido usurpada), reconhece aos EUA e ao RU a “autoridade” de potências ocupantes, cria um representante especial no Iraque para coordenar a atividade da ONU no território, e propõe a criação de um Fundo de Desenvolvimento para o Iraque - DFI (alimentado evidentemente pelas receitas da indústria petrolífera) e uma correspondente Junta Internacional de Acompanhamento e Monitorização (IAMB).
E, em 16 de outubro de 2003, a resolução 1511, sublinhando a natureza temporária da Autoridade Provisória da Coligação (CPA), saúda o recentemente constituído Conselho de Governo e reconhece ambos como sendo os principais órgãos da administração interina no Iraque. Pede que cooperativamente estabeleçam uma agenda para redigir uma constituição e realizar eleições; autoriza a constituição de uma força de segurança multinacional e solicita a comunidade internacional a urgentemente contribuir para ela (assim “legitimando” as forças invasoras e de ocupação); pede aos Estados para contribuírem não só para a força de segurança mas também para a “reconstrução” do Iraque e o seu financiamento (inclusive transferindo para o Fundo de Desenvolvimento (DFI) os ativos do regime deposto congelados no estrangeiro); os recursos do país estariam em saldo e era legitimada a antecipada apropriação de recursos que as corporações norte-americanas conduziam desde o primeiro dia.
Finalmente, a resolução 1546 de 8 de junho de 2004 do Conselho de Segurança, avança no caminho encetado, de legitimação do processo de ocupação, expropriação e subjugação do Iraque.
A cimeira da OTAN, a 28 de junho, em Istambul, foi sincronizada para o governo interino do Iraque, no suposto exercício da sua soberania, já solicitar e obter dessa aliança apoio para o treino das forças de segurança iraquianas, pois que pouco mais os aliados estavam dispostos a comprometer no plano militar.
A agressão ao Iraque foi “oferecida” pelo poder imperial do capital transnacional às indústrias petrolífera, da guerra e da reconstrução.
Assistimos ao dramático sofrimento e à inaudita resistência do povo por todas as vias incluindo a luta insurgente; por detrás desta luta encontram-se necessariamente múltiplos suportes materiais e morais e uma ou várias estratégias insurrecionais; mas subjacentes estão os enormes sofrimentos, indignação e rebeldia insubmissa do povo iraquiano.
A autoridade ocupante (CPA) tomou o partido Baath como o inimigo principal das forças ocupantes e da própria população iraquiana (enganando-se a si própria como agente de “libertação” e “democratização”) sem entender a diversidade de perspectivas e aspirações e as nuances das relações entre árabes e curdos e entre sunitas e xiitas e recorrendo irracionalmente ao exercício da força para “resolver” a sua própria incapacidade de entendimento, assim convertendo potenciais conjunturais aliados em imediatos opositores. Exemplar foi o seu comportamento em face de dois importantes lideres xiitas, um “moderado” e outro “radical” – Sistani e Moqtada – conseguindo hostilizar ambos.
No vazio de uma análise fundamentada e perante um povo insubordinado, a coligação e a força invasora encontraram dificuldades para elas inesperadas.
Às dificuldades internas da coligação junta-se a adversidade do contexto internacional para os seus propósitos.
São admitir perspectivas de alargamento do conflito a países limítrofes; tendo havido objetivos predefinidos no início desta guerra insensata, há todavia, necessidades estratégicas que emergem.
OCUPAÇÃO E RESISTÊNCIA
A presença norte-americana no Iraque é uma ocupação militar permanente e o exercício de controle político-militar que se pretende exaustivo.
Estimativas anunciadas das forças insurgentes tendem a ser conservadoras, ficando por 5 mil partidários baathistas; mas um maior número, difícil de estimar, serão os part-timers que emergem e se dissolvem na população; o número total atingiria, então, 20 mil, segundo analistas norte-americanos.
A maioria dos insurgentes são iraquianos seculares nacionalistas (compreendendo também antigos membros do partido Baath ou da Guarda Nacional), mas também são numerosas as milícias islâmicas.
A “colaboração” entre forças ocupantes e forças de segurança iraquianas bloqueia-se em mútua falta de confiança ou disfarçada insubordinação; as “recomendações” são ignoradas ou não são cumpridas; e forças irregulares “populares” desempenham de fato funções de policiamento nas ruas.
Ações de guerrilha contra as forças ocupantes, contra forças de segurança do governo interino iraquiano – imposto pela coligação e sancionada, agora, pela ONU –, bem como contra mercenários por conta de empresas de segurança e de reconstrução de qualquer nacionalidade, têm-se multiplicado e até intensificado após a transição para a nova etapa do processo político em fim de junho.
A Conferência nacional de dirigentes políticos, religiosos e regionais, em que seria selecionado um Conselho Nacional de cem elementos, cuja missão será superintender o governo interino, Conferência considerada uma etapa fundamental no calendário do processo político traçado para o corrente período em preparação das eleições de janeiro de 2005, foi subitamente adiada em fins de julho, a pedido da ONU, em face do boicote de numerosos e relevantes presumidos participantes.
Quer dizer que o “processo político” teima em não seguir o caminho e o ritmo que a administração norte-americana anseia impor.
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