Dahr Jamail e a Realidade da Guerra no Iraque - 2/3
Dahr Jamail e a Realidade da Guerra no Iraque - 3/3
IRAQUE
Autor de sapatada vira herói
O jornalista iraquiano Muntadar al-Zeidi, que virou notícia mundial no domingo ao jogar seus sapatos na direção do presidente americano, George W. Bush, em visita ao Iraque, virou herói no mundo árabe.
É como se Al-Zeidi tivesse feito justiça com as próprias mãos, na visão de muitos de seus conterrâneos.
Jornais imprimiram na capa a foto de Bush desviando dos sapatos.
– Esse é um beijo de despedida, seu cachorro. Isso é pelas viúvas, pelos órfãos e aqueles que foram mortos no Iraque – disse Al-Zeidi, em árabe, ao lançar os sapatos.
No Iraque, como em grande parte do mundo árabe, lançar um sapato é uma das maiores ofensas que se podem cometer contra uma pessoa, da mesma forma que chamá-lo de cão.
Abdel-Bari Atwan, editor do influente jornal Al-Quds Al-Arabi, sediado em Londres, escreveu no site do jornal que o lançamento do sapato foi “uma despedida adequada para um criminoso de guerra”.
– Al-Zeidi é o cara. Ele fez o que os líderes árabes deixaram de fazer – afirmou o empresário jordaniano Samer Tabalat.
Ghazi Abu Baker, um lojista da cidade de Jenin, na Cisjordânia, foi além:
– Esse jornalista deveria ser eleito presidente do Iraque pelo que fez.
Com as duas sapatadas desferidas pelo patriota Muntadar Al Zaidi, a encenação de Bush-Maliki foi para o vinagre. Ou, como destacou uma das organizações integrantes da Resistência Iraquiana, foi um “referendo contra o acordo”
Logo em seguida, o jornalista arremessou seu segundo sapato, e gritou que esse era “pelas viúvas, pelos órfãos e por aqueles que foram mortos no Iraque”. 
Seremos Todos Iguais? - Invasão do Iraque
Imagens da Guerra no Iraque - David contra Golias
Idênticas às de todas as guerras
Visão não aconselhável a Pessoas Sensíveis










SOMOS TODOS IGUAIS?
* Fritz Utzeri.
A tragédia humana no Iraque tem nome.
É Razek al-Kazem al-Kahaf.
Ele perdeu, em poucos segundos, a mulher, seis filhos, o pai, a mãe, três irmãos e suas cunhadas.
Quinze vítimas, mortas pelo exército de George W. Bush. Razek, certamente, agradecerá a Alá pela liberdade em que passará a viver quando o assassino Saddam tiver sido eliminado.
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Como todo mundo sabe, Saddam preparava-se para enlutar famílias americanas usando poderosas armas de destruição em massa.
Razek ainda acabará entendendo as razões dos ianques que detiveram a tempo a mão assassina do monstro.
E, afinal, como diria Peter Arnett: "Quinze mortos não são tantos assim". Por que chorar?
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Não se deixem enganar pelas imagens de bebês destroçados, ensangüentados, jogados entre trapos sujos e cheios de moscas em rústicos caixotes de madeira.
Não se preocupem.
Não chorem por eles.
São apenas iraquianos, pobres diabos de vida barata, que não merecem sequer uma flor. Meros "danos colaterais", estatísticas de uma guerra contra a barbárie, movida em nome de Cristo e da Civilização.
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Indignados estaríamos se as vítimas fossem crianças brancas, nutridas, que brincam de guerra com seus videogames, usam tênis Nike (aqueles feitos por pequenos escravos chineses), bebem Coca-Cola e freqüentam o McDonald's; ou seja, "nossas" crianças.
Imaginem a indignação na terra de Tio Sam se um helicóptero árabe disparasse um míssil sobre a família de um certo John Taylor, eliminando-a.
Crime contra a humanidade!
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O local se entupiria de flores, como santuário.
As TVs passariam e repassariam a cena.
Os EUA não descansariam enquanto não punissem exemplarmente o terrorista e seus mandantes.
Graças a Deus, isso não aconteceu.
Morreram apenas civis iraquianos e, como se sabe, são necessários muitos iraquianos mortos para equivaler a um único americano perdido.
Ninharia... .
Não entendo por que sociólogos ou antropólogos não pleiteiam bolsas para fazer estudos comparativos sobre o valor das vidas dos seres humanos. (Sou candidato a uma, vou precisar.)
Diz a lenda que somos todos iguais.
Será?
Para começar poderíamos estabelecer como referência a vida dos norte-americanos.
Quanto vale uma vida ianque?
Os EUA já fizeram essa conta há 59 anos e esta resultou em duas bombas atômicas.
Hiroshima e Nagasaki.
Milhares de crianças, mulheres e velhos japoneses (meros amarelos) foram vaporizados no holocausto nuclear para evitar a morte de GIs do Texas, Califórnia, Ohio etc.
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A vida de um norte-americano vale, certamente, mais do que uma vida inglesa, francesa ou alemã, mas não muito (as duas últimas desvalorizaram um pouco em função da posição da França e da Alemanha nesta guerra).
Ousaria dizer que a vida de dois europeus ocidentais (portugueses, espanhóis e italianos valendo menos) equivale a uma vida ianque.
Vidas israelenses andam perto dessa cotação.
Se tomarmos russos como parâmetro será preciso matar uns cinco, talvez seis.
E quantos brasileiros terão que ser eliminados para equivaler a um norte-americano?
Agora imaginem árabes, negros ou vietnamitas...
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E o mais irônico é que os assassinos dos filhos de Razek batizaram o sinistro helicóptero que os matou com o nome do povo índio que exterminaram, sem piedade, para roubar-lhe a terra: Apache!
Jerônimo deve dar pulos de indignação em sua tumba.
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E a imprensa continua com a ficção das "bombas inteligentes".
São bombas serial killers, tão inteligentes quanto Hannibal Lector.
A bomba que "libertou" a família de Razek é de fragmentação.
Ela carrega 200 minibombas que se espalham e explodem na superfície do solo lançando uma onda de fragmentos, afiados como navalhas, que ferem e matam num raio de 200metros.
Não demole, nem danifica, prédios ou pontes.
É feita para matar.
Equivale a minas terrestres jogadas de avião.
É arma assassina.
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O que diz disso a Convenção de Genebra, zelosamente invocada pelos ianques quando os iraquianos mostram prisioneiros norte-americanos na TV?
Presos tratados a pão-de-ló, quando comparados à maneira nazista como são torturados os afegãos em poder dos esbirros de Bush & cia, na base de Guantanamo, terra roubada de Cuba em...
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Mas isso já é outra História...
*Fritz Utzeri é jornalista, nascido na Alemanha há 58 anos, 50 dos quais passados no Brasil.
Este texto foi publicado originalmente no Jornal do Brasil de 06/04/2003, e está disponível, para leitores cadastrados, em
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http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/colunas/fritz/
http://www.nao-til.com.br/nao-78/futzeri.htm
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in Jornal do Brasil, 06/04/2003
kantoximpi.blogspot.com/2007_08_01_archive.html
`Al-Quds al-Arabi`- CSAweb (www.nodo50.org/csca)
A resistência parte da idéia de libertação nacional, não da lealdade a uma determinada figura
A resistência é uma realidade sobre a qual todos estamos curiosos, mas muitos querem saber quem são vocês.
A resistência é 100% iraquiana.
Abarca diferentes correntes e pessoas de distintas profissões: intervêm nela o Partido do Movimento Islâmico, o Partido Ba'az, nasseristas, setores do exército e da polícia, médicos, engenheiros, docentes, artistas, desportistas, estudantes e camponeses, inclusive, há um amplo apoio de iraquianos sunitas, xiitas, árabes e curdos.
Portanto, não é correto que se falem de Bin Laden ou de qualquer outro sem que isto signifique questionar sua Jihad (Guerra Santa).
Nós iraquianos temos capacidade e possibilidade de lutar e não necessitamos de forças que, além disso, estão cercadas no Afeganistão.
Nosso desejo é que os ianques e os britânicos sejam derrotados em todas as partes.
Mas isto não afetará o movimento (da resistência)?
Quando dissemos que o povo está conosco, não quer dizer conosco dentro da organização.Está conosco no sentido de que nos facilita o passo, o movimento. Porém a organização encontra-se estruturada de tal maneira que uma célula (ou um grupo) está a salvo caso sejam detidos membros de outra (ou de outro grupo).
Quantos resistentes foram detidos?
Nenhum.Todos os detidos (pelas forças de ocupação) são do povo, mas nenhum deles está vinculado à resistência.
Alguns civis caíram vítimas em algumas operações. Como isso pode ser explicado?
Só temos atuado contra as forças criminosas de ocupação, e não temos atacado a nenhum civil.
Que papel desempenham Saddam Hussein e Izzat Ibrahim al-Duri1?
A direção da resistência aprecia o papel militante de ambos, mas a resistência parte da idéia de libertação nacional, não da lealdade a uma determinada figura.
Enfrentamentos no campo xiita
Qual é a sua opinião sobre o assassinato de Baker al-Hakim2?
Há uma luta interna recaldada entre os clérigos xiitas pelo controle da al-Hawza3 e por ganhar influência, que foi o que conduziu ao assassinato de al-Hakim, dias depois que retornara ao Iraque com as forças de ocupação.
Al-Hakim era um colaboracionista dos ocupantes e trabalhava para os serviços secretos ianques e britânicos desde muito tempo. Segundo a informação de que dispomos, foi um grupo vinculado ao Irã que o matou. Não é o momento adequado para revelar o nome do grupo.
O Conselho Governativo faz parte de seus objetivos militares?
Todos os que colaboram com a ocupação são traidores e, portanto, objetivos legítimos de nossa luta, tal como estipulou o editor religioso, fatwa (sentença de morte proferida contra um inimigo do islamismo).
Além de vocês há alguma outra parte implicada na resistência?
Sim há. Porém, 95% das operações foram levadas a cabo por nós mesmos: entre 32 e 40, diárias, que deixam uma média de 12 soldados ianques e britânicos mortos.
Por que a impressão de que somente há resistência na zona sunita?
O Iraque é um só país e temos nossa maneira de eleger o momento e o lugar adequados para realizar nossas operações.
O Iraque é para todos: árabes, curdos e turcomanos; sunitas e xiitas.
Nos próximos dias vamos ampliar nossas ações a cidades como as-Sulaymania, Arbil, Dahuk, Anajaf, Amara e a as-Samwa.
Existe uma direção central da resistência?
Sim. Existe e tem um plano elaborado com minúcias e realismo para dirigir as operações militares em todo Iraque.
Que opinião tem sobre as últimas declarações de Mohamed Said as-Sahaf4 sobre os dias da guerra e do que ocorria então?
Se supõe que há determinados segredos que não se podem revelar antes que passe certo tempo, e o irmão as-Sahaf o sabe muito bem, mas desconheço seu ponto de vista ao decidir revelá-los em público. Eu pessoalmente não estou contra ele, porém alguns membros da direção (da resistência) pensam que deveria ter guardado silêncio sobre determinados assuntos, sobretudo porque a cadeia árabe de TV que emitiu suas declarações está a serviço das forças de ocupação.
Qual é a sua avaliação da postura da Síria e do Irã?
A Síria não ganhou nada depois de haver guardado estes traidores e espiões5, e de ter financiado, do mesmo modo que o fizeram Kuwait, Arábia Saudita, Irã e Jordânia, além do Reino Unido. O Irã não se enfrentará nem com USA nem com Israel6. O Irã conspirou contra os taleban e contra o Iraque, dando resposta às demandas ianques. A denúncia ianque sobre o desenvolvimento de armas de destruição em massa no Iraque é uma mera encenação. Não há nenhum regime árabe ou não-árabe vizinho ao Iraque que apóie a resistência iraquiana.
E sobre a posição da Jordânia?
Não vale a pena mencionar o esquálido regime jordaniano: esteve distraindo o Iraque nos primeiros dias da agressão ao permitir a entrada de unidades do exército ianque através de suas fronteiras. Este regime entregou militantes da Arábia Saudita ao USA para que se enfrentem até a morte, e agora se dedica a interrogar iraquianos (exilados) para obter informação sobre a resistência e entregá-la aos ianques.
E sobre os países do Golfo?
Sempre apoiaram o ocupante. São os que estão alimentando as forças de ocupação. Nestes países há forças patrióticas, nacionalistas e islamitas, mas estão reprimidas.(...)
E com que apoio conta a resistência, então?
Contamos com ajuda de Deus, com o apoio do povo iraquiano e esperamos que com a do povo árabe e de suas forças, com as do mundo muçulmano e com as de todos aqueles povos livres do mundo que estão ao lado da luta do povo do Iraque. Só necessitamos de gestos como o boicote aos produtos do USA, Reino Unido, Israel e dos países que participam na ocupação de nosso país, como Espanha, Polônia e Itália, ou o Japão, se chegar (finalmente) a mandar tropas. Também pedimos que se boicote aos traidores.

21 de novembro de 2003
1 Izzat Ibrahim ad-Duri, vice-presidente do Conselho da Revolução do Iraque no momento da ocupação do país, e ainda não detido, recentemente foi apresentado pelo Pentágono como coordenador das ações da resistência iraquiana. Doente de leucemia (o que limita a credibilidade de que possa ser um eficaz coordenador da resistência), o Pentágono oferece 10 milhões de dólares por sua captura. No dia 26 de novembro as tropas de ocupação detiveram em Sumarra sua mulher e uma de suas filhas.
2 Baker al-Hakim, dirigente do Conselho da revolução Islâmica no Iraque, estabelecido no Irã até seu regresso ao Iraque, representava os setores convictos xiitas favoráveis à invasão do Iraque, havendo participado nas reuniões mantidas no transcurso do ano anterior com representantes da administração Bush. Al-Hakim morreu num atentado em Najaf em 29 de agosto, junto a mais de 100 pessoas.
3 Máxima instituição religiosa xiita.
4 Mohamed Said as-Sahaf – ministro da Informação no momento da invasão do Iraque (antes o foi de Exteriores) –, reiterou as considerações vertidas depois da ocupação por alguns meios árabes de que certos altos mandos militares (da Guarda Republicana, concretamente) e dos serviços de informação iraquianos haviam feito pacto com o USA, não opondo resistência militar a invasão, concretamente em Bagdá.
5 Parte da oposição iraquiana ao deposto regime estava assentada na Síria.
6 O presidente iraniano Jatamí recebeu no dia 10 de novembro a Jalal Talabani, presidente de turno do Conselho Governativo iraquiano, e a outros nove membros desta instância designada por Bremer, no que supõe um reconhecimento oficial por parte do Irã (Europa Press, 24/11/ 2003).
http://www.anovademocracia.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=942&Itemid=62



