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quinta-feira, 7 de maio de 2009

TORTURA, TORTURADOS E TORTURADORES

“Vários detidos morreram sob tortura”

Entrevista com Abdelyabar al-Kubaysi, secretário geral da Aliança Patriótica Iraquiana: IraqSolidari
Al-Basra, 28 de dezembro de 2005

Faça um resumo de seu período de detenção

Estive detido durante 16 meses no cárcere de Camp Cropper, situado no Aeroporto Internacional de Bagdá, onde também se encontra a maior base ianque do país. No início de minha detenção, os interrogadores ianques me mostraram pastas que diziam conter informações sobre mim desde 1960. Meu interrogatório durou seis meses e era, em sua quase totalidade, de caráter político. Inclusive me perguntaram sobre personalidades políticas árabes e estrangeiras. Na última parte do interrogatório me disseram que não acreditavam em nada do que lhes dizia. Minha resposta foi: "Isto é problema de vocês."
Nos primeiros seis meses de minha detenção me introduziram em uma cela construída em um habitáculo de madeira um pouco maior. Mas passei os primeiros dias em uma caixa (de madeira) onde cabia apenas meu corpo.
Depois desses 6 primeiros meses me transferiram para onde estavam os presos políticos.
Durante meu tempo de detenção eu pude falar com todos eles, com exceção de Tareq Aziz e Taha Yasín Ramadán 1, que via de longe, mas com quem nunca coincidia haver ocasião em que pudéssemos nos falar. Entre os com quem conversei muito estão Qays al-Aazami, Humam Abdel Kader, Humam Abdel Jalek, Abdel Ata-wab Hwich, Ahmed Mortada, Hus-sam Mohamed Amin, Sutam Alham-mud e Abd Hammud, além de vários oficiais dos serviços secretos iraqui-anos. Havia um total de 103 detidos neste cárcere.
Antes de nos colocar em liberdade nos perguntaram se tínhamos um destino de preferência. Eu e ou-tros cinco escolhemos Bagdá, ou- tros cinco Tikrit; outros escolheram Aman, inclusive as senhoras Huda Saleh Ammach e Rihab Taha, porque temiam ser assassinadas pelas milícias de Badr2.
Na prisão (do aeroporto de Bag-dá) há uns 65 detidos (dirigentes do governo deposto e do partido Baath) a espera de julgamento. Mas é provável que se liberte alguns deles, como Mohamed Mahdi Saleh (que foi ministro de Comércio), Abdel Atawab Hwich e Saad Abdel Majid al-Faysal (ex-funcionário do ministério do Exterior), Fadel Mahmud Gharib e Jalil Sarhan (membros da direção do Partido Baath), e Hamed Challah (comandante das Forças Aéreas). São um total de 12 os detidos que ainda não compareceram perante nenhum juiz, mas é possível que acabarão por fazê-lo no futuro.
O que caracteriza essencialmente a este centro (de detenção) é que está totalmente isolado do resto do mundo. O preso não vê mais que aos soldados ianques - ainda que posteriormente me permitiram contactar com minha família durante dez minutos a cada 40 dias e o mesmo fizeram com os demais detidos, que podiam ver sua família durante 20 minutos a cada quatro meses. Estas medidas afetavam todo mundo.



Que tratamento recebeu dos ocupantes durante os dias anteriores a sua libertação?



Antes de minha libertação os ianques pediram que eu assinasse uma declaração contra a violência e comprometendo-me a não atuar contra o governo iraquiano e as forças multinacionais de ocupação, estar contra qualquer atividade contra eles e comprometer-me de tudo isso ante as forças de segurança iraquianas, além de deixar de expressar-me politicamente nos meios de comunicação durante um ano e meio.
Perguntei-lhes se pretendiam que acabasse trabalhando como confidente e me neguei a assinar aquele documento. Também disse a um general ianque que se havia passado tanto tempo preso é porque havia rechaçado o que estavam me propondo agora, e perguntei se a estas alturas pretendiam me converter em seu espião. E acrescentei: imagina você que eu possa calar-me sobre o que se está passando em meu país? Abandonei então a sala de interrogatório e me dirigi a meu módulo. O general me seguiu e disse: "Bem, assine o que quiser e rabisque o que quiser".
Entre os pontos que continha aquele documento havia um que se referia ao "apoio a uma reconciliação nacional num Iraque unido", e outro ponto que afirmava haver "sido informado de que o partido Baath foi proscrito por lei" 3. Outro ponto fazia referência a minha "disposição de comparecer ante à justiça, se assim fosse preciso" - ainda que durante todo o tempo que durou minha detenção sempre tenha enviado cartas ao Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) solicitando ou minha libertação ou meu julgamento diante de um juiz iraquiano - assinei dando meu consentimento a estes pontos e rasurei os demais.
Ao sair da prisão me entregaram um certificado de ter sido detido, no qual consta um telefone pessoal para o caso de os soldados decidirem me prender novamente.



Interrogatórios



Que tipo de discussões tinhas com os interrogadores?



Os interrogatórios e seus procedimentos eram fatigantes. Os interrogadores eram mudados constantemente e as sessões duravam mais de 20 horas, tempo que sempre passávamos com as mãos e os pés amarrados e os olhos vendados. Os interrogadores estavam formados por grupos de quatro ianques da CIA ou de outras instâncias e iam mudando constantemente.
Nos pediam informações sobre a resistência ou sobre as mesquitas de Faluja e outras questões concretas. Logo as discussões passaram a ser em torno da ocupação em si e do dinheiro roubado do Iraque (lhes disse em uma ocasião que eram uns ladrões e o interrogador me contestou que isso não era verdade; seguidamente lhe joguei na cara que ele, seu pai e seu presidente eram todos ladrões)
Para justificar minha detenção os interrogadores elaboraram umas acusações que não chegavam a ser crimes, porque sabiam que não era verdade, não porque eu me negasse a confirmá-las, pois consistia em que eu me dedicava a mobilizar as forças árabes e européias contra a ocupação, ou que eu havia feito reuniões com Saddan Husseim para organizar a ação da resistência para depois da ocupação4, ou que eu era coordenador político de islamitas, sadristas5 e baathistas, além de ser um teórico político da resistência.
Um dos interrogadores me apresentou alguns escritos meus como prova de que eu era um teórico político da resistência, textos nos quais eu havia abordado alguns pontos para criar as condições da expulsão dos ocupantes. Eu não neguei que alento a resistência até a expulsão do último soldado ianque e iraniano de meu país, mas, por outro lado, disse desconhecer quem faça parte da resistência.
Assim, havia escrito em algum artigo meu que eram necessárias quatro condições para poder acabar com a ocupação:
1 ampliar a geografia da atividade armada da resistência e fazê-la crescer para que se converta em uma resistência nacional sem denominações confessionais;
2 fomentar as ações qualitativas para infligir maiores danos aos ianques, tanto a nível humano como material;
3 que o Iraque não está isolado de seu entorno, nem pela história nem pela geopolítica (regional) e que, portanto tudo o que acontece no Iraque faria efeito em toda a zona, o que levaria os governos leais ao USA no Oriente Médio a formular (à administração Bush) o risco que suporia continuar ocupando o Iraque e as consequências do fortalecimento da resistência iraquiana, de tal maneira que o USA se dará conta de que a entidade sionista na Palestina , que ele tem protegido, fazendo a guerra por ele (Israel), estará em perigo; e
4 que o USA perdeu sua credibilidade e isto levará a sociedade estadunidense a rechaçar a ocupação e a guerra no Iraque.
Logo me perguntou: "Por que não luta contra a ocupação iraniana?", e lhe respondi que a ocupação iraniana se acabará um minuto antes de sua retirada do Iraque, porque é uma ocupação velhaca que chegou depois da ianque e deixará de existir no momento em que o exército ianque desmoronar e fugir do Iraque. É uma ocupação coberta pelo capacete do soldado ianque e sustentada nos serviços secretos iranianos e em organizações e instituições controladas por esses serviços, que recebem dezenas de milhões de dólares. E ele me respondeu "Então, é possível que estale uma guerra civil?". Eu lhe disse: "retirem-se e deixe-nos matarmos entre nós. No Iraque nunca sentimos que haviam chiitas e sunitas e só começamos a escutá-lo quando vocês chegaram e trouxeram o governo iraniano de Al-Jaafari e os partidos iranianos, mas mesmo assim tudo isso terminará quando vocês se retirarem de meu país. Vocês são os inimigos agora e tua expulsão é a única saída que temos e será por meio da resistência". Logo ele me insultou e eu lhe insultei e lhe disse que não podia fazer nada comigo a não ser que me desse um tiro na cabeça.
Depois veio outro interrogador da CIA e me disse que o Iraque estava em perigo, que o USA está empantanado e repeitavam muito a análise que fazíamos da situação. Me prometeu inclusive fazê-la chegar a Washington.



Torturas



O que ocorre neste centro de detenção, sobretudo com relação à tortura?



Eu pessoalmente não vi ninguém que tenha sido torturado, salvo os casos de quatro pessoas: Taha Yasín Ramadán, vice-presidente da República, porque vi seu corpo ensanguentado e o mesmo tentando curar-se com água e sal; Jamis Sarhan, membro da direção do Partido Baath e morador de Faluja; o Dr. Hazem Achaij Arrawi, um cientista do programa biológico; e Mohamad A-Saghir, oficial dos serviços secretos. E não estou me referindo à prática habitual de vendar os olhos e amarrar as mãos nas costas dos detidos, para logo juntá-las com os pés durante dias, metidos em cubículo de madeira dentro de outro buraco pequeno e escuro. Não, não me refiro a essas práticas, que sofremos durante todos os dias do interrogatório e que eu pessoalmente também sofri.
É preciso destacar também que nem para comer nos desamarravam as mãos, nem nos tiravam as vendas dos olhos. Apenas em lugar de amarrar nossas mãos nas costas o faziam para a frente e aí era preciso comer como um cego. A comida durava dez minutos e depois as mãos voltavam a ser amarradas atrás.



Conheceu alguém que tenha sucumbido à tortura?



Sim, várias pessoas morreram sob tortura, entre eles Adel Al-Duri, que tinha mais de 60 anos e era membro da direção do partido Baath; Hamza Zubaidi, ex-primeiro-ministro, que tinha mais de 70 anos de idade; e Waddah Achaij, um oficial de serviços secretos, que tinha uns 58.



Havia quantas pessoas detidas no cárcere?



Há 103 detidos, além de membros da resistência que foram isolados em um pavilhão à parte, como eu durante os primeiros seis meses. [Este grupo] chegou a estar composto por uns 17 detidos e 9 detidas.
Quando fui libertado, eles seguiam isolados e não sabemos nada do que se lhes inflige.



Aparte a tortura, havia também tentativas de subornar os detidos? Recebeu alguma oferta nesse sentido?



Desde o começo, me ofereceram dinheiro e postos no [novo] governo. E mais, me disseram: "critique-nos, mas dê sua boa vista à participação no processo político e nas eleições [de 15 de dezembro] de 2005". Rechacei isso e assim me disseram que não ia ser posto em liberdade até que as eleições fossem celebradas, e assim foi.
Disse-lhes também que eu estou a favor da resistência e que se tivesse 30 anos lutaria contra eles. Um de seus generais me respondeu: "Forme dois batalhões e lute contra nós, mas não escreva contra nós". Aí, lhes disse: " Não sou um militar e tenho mais de 60 anos, sendo que a única coisa que posso fazer é escrever. É o que seguirei fazendo".



O que mais incomoda os detidos?



A alimentação. Os detidos sofrem de uma fome inimaginável. Era-nos servida uma colher de arroz e entre 20 ou 30 grãos de milho por detido, além de um pedaço de carne. E não estou exagerando. Quando mudavam de menú, nos davam três colheradas de macarrão. Essa é uma das preocupações dos detidos, que fica refletida em suas cartas dirigidas ao CICV.
_____________________________________
1. Respectivamente, vice-primeiro-ministro e vice-presidente do Iraque no momento da invasão.
2. As milícias de Badr são corpos paramilitares criados e fomentados no Irã. São o braço armado da chamada "revolução islâmica" e estão em semi-legalidade no Iraque.
3. Al-Kubaysi é dissidente do partido Baath há 25 anos.
4. Como secretário geral da Aliança Patriótica Iraquiana, Al-Kubaysi instou o governo de Saddam Hussein a abrir um processo de diálogo político com a oposição no exterior, não comprometida com os planos de invasão do Iraque que, depois de 12 anos de sanções, era já iminente. Al-Kubaysi voltou ao Iraque com este fim antes do início da invasão. Poucas semanas antes do início da guerra visitou o Estado espanhol.
5. Partidários de Al-Sadr, clérigo chiita, finalmente vinculado nas eleições de dezembro à lista confessional chiita hegemônica no governo anterior de Al-Jaafari.












A confissão do torturador
Eduardo Galeano
Porto Alegre 2003



Como uma compensação, o sistema de poder confessa sua verdadeira identidade através das torturas que inflige. Nas câmaras de tormento, os que mandam arrancam sua máscara.
Assim ocorre no Iraque, para citar um exemplo. Para apoderar-se do Iraque apesar dos iraquianos e contra os iraquianos, as tropas de ocupação atuam com realismo: pregam a democracia e a liberdade e praticam a tortura e o crime. Quem quer ao fim, quer aos meios. Ou por algum acaso alguém pode crer que existe outra maneira de roubar um país?
O resto é puro teatro: as cerimônias, as declarações, os discursos, as promessas e a transferência da soberania, que passa dos Estados Unidos aos Estados Unidos.
Ocorre que o poder não diz o que diz. Por exemplo: quando diz "terrorismo no Iraque", em muitos casos deveria dizer: "resistência contra a ocupação estrangeira”.
***
Quando se publicaram as fotos e estourou o escândalo, as cúpulas do poder político e militar cantaram em coro os salmos de sua auto-absolvição:
- "São casos isolados" - "São casos patológicos" - "São umas tantas maçãs podres" - "São perversos que desonram o uniforme".
Como de costume, o assassino pôs a culpa na faca.
Mas esses soldados ou policiais que enlouquecem o prisioneiro dando-lhe descargas de eletricidade, ou submergindo-lhe a cabeça em merda, ou partindo-lhe o cu, não são mais que instrumentos: funcionários que ganham o soldo cumprindo sua tarefa em horário de trabalho. Alguns trabalham com falta de vontade e outros com fervor, como essas entusiasmadas senhoritas que se fotografaram enquanto humilhavam seus torturados iraquianos e os exibiam como troféus de caça. Mas todos, os apáticos e os fervorosos, são burocratas da dor que atuam a serviço de uma gigantesca máquina de picar carne humana. Loucos? Perversos? Pode ser, mas o pretexto patológico não absolve o poder imperial que necessita da tortura para assegurar e ampliar seus domínios, porque esse poder está muito mais louco e é muito mais perverso que os instrumentos que utiliza. E nada tem de anormal que um poder atrozmente injusto se utilize de métodos atrozes para perpetuar-se.
***
Nada tem de anormal, tampouco, que esses métodos atrozes não se chamem por seu nome.
A Europa sabe que onde manda capitão não manda marinheiro. A declaração da União Européia contra as torturas no Iraque não mencionou a palavra tortura. Essa desagradável expressão foi substituída pela palavra “abusos”. Bush e Blair falaram de “erros”. Os jornalistas da CNN e de outros meios de massa não puderam utilizar a palavra proibida.
Anos antes, para que os prisioneiros palestinos fossem legalmente triturados, a Suprema Corte de Israel havia autorizado "as pressões físicas moderadas". Os cursos de torturas que há muito tempo recebem os oficiais latino-americanos na Escola das Américas denominam-se "técnicas de interrogatório". No Uruguai, que foi campeão mundial na matéria durante os anos de ditadura militar, as torturas se chamavam, e ainda se chamam, "processos ilegais".
Segundo a Anistia Internacional, a venda de aparatos de tortura no mundo é um brilhante negócio para umas tantas empresas privadas dos Estados Unidos, Alemanha, Taiwan, França e outros países, mas esses produtos industriais são "meios de autodefesa" ou "material para o controle da delinqüência".
***
Por sua vez, mencionaram sim a palavra tortura, com todas as suas letras, os pesquisadores que interrogaram a população dos Estados Unidos no ano de 2001, pouco depois da derrubada das torres de Nova Iorque. E quase a metade da população, 45 por cento, respondeu que a tortura não parecia má “se aplicada contra os terroristas que se negam a dizer o que sabem”.
Seis anos antes, no entanto, a ninguém havia ocorrido torturar o terrorista Timothy McVeigh quando ele se negou a dar o nome de seus cúmplices. A bomba que McVeigh pôs em Oklahoma matou 168 pessoas, incluindo muitas mulheres e crianças, mas era branco, não era muçulmano e havia sido condecorado na primeira guerra do Iraque, onde aprendeu a cozinhar purê de gente.
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Contra o terrorismo, tudo vale. Isto tem proclamado o presidente Bush, em mil ocasiões; e o repetido o eco Blair. Ambos continuam brindando pelo êxito de suas cruzadas. Seguem dizendo: “O mundo é agora um lugar mais seguro”, enquanto o mundo estoura e a cada dia a violência gera mais violência e mais e mais.
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Guantánamo é o símbolo do mundo que nos espera. Seiscentos suspeitos, alguns menores de idade, definham nesse campo de concentração. Não têm nenhum direito. Nenhuma lei os ampara. Não têm advogados, nem processos, nem condenações. Ninguém sabe nada deles, eles não sabem nada de ninguém. Sobrevivem em uma base naval que os Estados Unidos usurparam de Cuba. Supõe-se que sejam terroristas. Se são ou não são é apenas um detalhe que não tem a menor importância.
Ali foi onde o general Ricardo Sánchez ensaiou trinta e duas formas de tortura, chamadas "táticas de pressão e intimidação", que logo implantou nas prisões do Iraque.
***
Desde a derrubada das torres de Nova Iorque, a tortura vem recebendo numerosos elogios. Foi desencadeado um bombardeio de opiniões jurídicas e jornalísticas aberta ou veladamente favoráveis a este método institucional de violência, ainda que nunca, ou quase nunca, o chamem como se chama. Estas apologias da infâmia, que provêm do poder, ou de fontes próximas, sustentam que a tortura é legítima para defender a população desamparada ante as ameaças que espreitam, porque existem meios de luta de moralidade duvidosa que resultam inevitáveis contra os inescrupulosos assassinos que praticam o terrorismo e o promovem e que jamais dizem a verdade.
Mas, se foi assim, quem havia de torturar? Quem são os homens que mais têm mentido neste século XXI? Quem são os que mais inocentes têm matado, sem nenhum escrúpulo, em suas guerras terroristas do Afeganistão e Iraque? Quem são os que mais têm contribuído à multiplicação do terrorismo no mundo?
***
Agora abundam os surpreendidos e os indignados, mas a tortura não foi utilizada por erro nem por casualidade contra a população iraquiana. As tropas de ocupação a empregaram como era costume, por ordens muito superiores, sabendo do que faziam e para quê o faziam.
Para quê? Não há nenhuma prova de que a tortura tenha servido para evitar um só atentado terrorista. No caso do Iraque, nem sequer tem sido útil para capturar algum dos foragidos importantes. E mais, Saddam Hussein não caiu graças à tortura, e sim graças ao dinheiro que comprou um delator.
A tortura arranca informações de escassa utilidade e confissões de improvável veracidade. E, no entanto, é eficaz. Por isso foi aplicada e se continua aplicando: o que é eficaz é bom, segundo os valores que regem o mundo. A tortura é eficaz para castigar heresias e humilhar dignidades, e sobretudo é eficaz para semear o medo. Bem o sabiam os monges da Santa Inquisição e bem o sabem os chefes guerreiros das aventuras imperiais de nosso tempo: o poder não emprega a tortura para proteger a população, e sim para aterrorizá-la.
Será tão eficaz quanto o poder crê que seja?<>


Tradução: Tiago Soares


22/07/2004





Iraque
Saddam Hussein acusa EUA de mentir sobre tortura
Agência ANSA
Quinta-feira, 22/12/2005 - 12:17


Bagdá - O ex-presidente iraquiano Saddam Hussein acusou hoje os Estados Unidos de "mentir" quando afirma que não foi torturado nas mãos dos carcereiros, assim como "mentiram sobre as armas químicas no Iraque".




A informação foi dada esta manhã pelo Tribunal Especial de Bagdá, onde foi retomado o processo contra ele pela matança de 148 xiitas na cidade de Dujail em 1982.




"Na Casa Branca são uns mentirosos", disse Saddam, que entrou no cercado destinados aos réus com uma cópia do Alcorão nas mãos.




"Disseram que o Iraque tinha armas químicas. Mentiram de novo agora, fingindo que não apanhei", expressou o ex-presidente, que está sendo julgado junto a sete de seus ex-funcionários de governo. Na audiência de ontem, quarta-feira, a sexta desde o início do processo em 19 de outubro, Saddam assegurou ter sido "torturado e apanhado" por seus carcereiros norte-americanos, e que ainda tem "marcas em todo o corpo".
Horas mais tarde o porta-voz da Casa Branca Scott McClellan expressou que as afirmações do ex-presidente "eram a coisa mais absurda" que já haviam escutado.

domingo, 26 de abril de 2009

RESISTÊNCIA NACIONAL IRAQUIANA LEGÍTIMA REPRESENTANTE DO POVO IRAQUIANO

É motivo de júbilo para todos os povos, a valentia e a coragem do Povo Iraquiano
Faz-se mister reforçar a saudação à Heróica Resistência do Povo Iraquiano, Palestino e todos os Povos que combatem por sua Liberdade em todo o Mundo.

Viva a Heróica Resistência do Povo Iraquiano

Porta-voz da Resistência Iraquiana esteve em Lisboa


A Resistência Iraquiana não se deixa iludir pelas promessas de Obama. E continuará a lutar até à saída do último soldado estadunidense e à justa indenização do Povo Iraquiano pelos danos e os crimes dos EUA.
A convite do Tribunal-Iraque, esteve em Lisboa, o Dr. Abu Mohamad, médico iraquiano exilado na Síria, porta-voz oficial da Frente Nacional da Resistência Iraquiana (FNRI).

Num encontro informal com activistas da solidariedade com o Iraque, explicou a evolução da situação politica e militar no terreno e o programa político da Resistência.

O Dr. Abu Mohamad usou de forma sistemática a palavra colonização para se referir à ocupação do seu país pela coligação dos EUA.
O Passa Palavra, dada a importância da situação no Iraque e da Resistência Popular daquele país ao invasor-ocupante, limita-se aqui a transcrever os principais aspectos da intervenção e das respostas de Abu Mohamad às questões que lhe foram colocadas, em que sublinhou que a ocupação não é apenas militar.


“A ocupação é uma colonização”

“Não se tratou apenas de uma colonização militar. Se fosse assim, derrubava Saddam Hussein e saía do Iraque.

Sabemos que a presença americana era para um projecto mais alargado, no Iraque, na zona e, se calhar, no mundo inteiro. Por isso destruiu o Estado Iraquiano e as cidades iraquianas. Destruiu todas as instituições nacionais, para pôr no [seu] lugar instituições americanas.
“Essas instituições, as políticas sociais, os valores sociais fundamentais que os iraquianos sempre aprenderam – foi tudo mudado. Há uma estratégia para colocar novos valores e éticas na sociedade iraquiana. Foi instalado um governo, um parlamento, para realizarem este projecto. Acordos políticos, leis novas, para garantir os interesses americanos no Iraque.
“Uma das primeiras causas para eles estarem lá é controlarem o petróleo.
O Iraque está em cima de um lago de petróleo e tem as maiores reservas mundiais, em primeiro lugar antes da Arábia Saudita.
“Mas não tem só riqueza em petróleo. Tem uma grande riqueza histórica, um valor enorme na história e na origem da civilização humana.
Com mais de 7 mil anos de história, foi durante muitos séculos a capital do mundo e as primeiras civilizações nasceram lá.
“Hoje, quem tem o controle do petróleo tem o controle da energia básica do mundo que é o pilar da economia. Controlar a economia internacional é controlar o bocadinho de pão que vai haver para toda a gente neste momento.
“É este o primeiro objectivo da América com a colonização do Iraque.”

Resistência desde a primeira hora

A resposta do Povo Iraquiano a esta ocupação-colonização foi desencadeada desde a primeira hora, sem hesitações. Primeiro consistiu em atrasar o processo de colonização, com a resistência ainda organizada numa multitude de pequenos grupos dispersos.
Numa segunda fase, com o esforço de unificação politico-militar desses grupos, foi-se definindo um projecto político próprio da Resistência, com as condições para a retirada dos ocupantes e para o período de transição pós-retirada, assim como o tipo de regime (democrático e laico) a vigorar em seguida.

“Os EUA ficaram paralisados, sem solução, graças à Resistência e às baixas que causou.

Os números que vou referir são do Pentágono: há mais de 4.500 soldados mortos e 40.800 feridos. Destes, 3.000 morreram depois e 2.000 ficaram com problemas mentais. Mas os números da Resistência ultrapassam estes, porque o Pentágono não conta com os seguranças privados.

“A Resistência já neutralizou mais de um terço das forças armadas americanas, e causou muitos danos na economia americana, que foram uma das razões que levaram à crise económica mundial que está a causar o desemprego em todo o lado.
Os relatórios da administração americana dão conta de que os custos desta guerra chegam a 2 triliões de dólares. Cada hora que passa custa 10 milhões de dólares.”

O que é a Resistência Iraquiana?

“A Resistência Nacional Iraquiana tem um papel enorme nisto tudo, porque conseguiu pôr um travão no projecto de colonização global americano.
“A Resistência representa todo o Povo Iraquiano. Não está a lutar contra os americanos por serem americanos. Está a lutar contra os americanos por estarem a colonizar o nosso país.
Abrange todas as classes e todas as componentes da sociedade.
Há árabes, há curdos, há turcomanos; há muçulmanos, há cristãos.

Tem o apoio de 90% do Povo Iraquiano.

Estes dados foram anunciados pela CNN e pela USA Today.
Perguntaram aos iraquianos – muçulmanos, xiitas, sunitas, curdos, árabes – e chegaram à conclusão de que os que recusam a colonização americana representam 89% do Povo Iraquiano.

“A Resistência começou com facções divididas - como primeira reacção à colonização do exército americano – que já se começaram a unir para formarem duas frentes de luta.

“A Frente Nacional Islâmica do Iraque, com 36 secções militares e representação dos partidos que estão contra a presença americana, representa a maioria da resistência. Fazem parte dela a maioria dos moderados iraquianos, mesmo os sunitas cristãos.
A segunda frente, menos de 10% da Resistência, é composta por facções islamistas, com tendência para serem fundamentalistas.
O que une a Frente Nacional (que represento) e a Frente Islamista é o objectivo comum: libertar o nosso país.”

Um programa político para um Iraque livre

“A Frente Nacional Iraquiana tem um programa político muito claro. Tanto para a luta pela libertação, como para depois da colonização.
A cultura geral dos iraquianos é uma cultura humanista moderada.
Suponho que, quando houver eleições depois da partida das tropas, quem vai ganhar vai ser a Frente Nacional porque representa melhor a maneira de ver e de pensar dos Iraquianos.

“É por isso que o Programa da Frente Nacional Islâmica do Iraque, em que a maior força é o Partido Baas Nacional Iraquiano, tem como base:

libertar o Iraque, uma libertação total e completa. Organização do Iraque, o Estado e o povo. Libertação dos reféns e dos prisioneiros das prisões do governo iraquiano e das dos americanos. Anulação de todas as leis e decisões tomadas durante a colonização. Depois, a instalação de um regime iraquiano democrático, com participação dos partidos não comprometidos com a colonização. Terá de haver um período transitório de dois anos, com num governo provisório, para anular as consequências da colonização, instalar os serviços para os cidadãos iraquianos e preparar uma Constituição iraquiana independente da presença americana; bem como estabelecer uma lei que organize a vida dos partidos e as eleições. E, depois, realizar eleições.

“A FNI manterá as melhores relações com os países da zona e garante os interesses internacionais e a amizade com todos os povos da região e do mundo. E mesmo os interesses dos EUA, se aceitarem indenizar o Povo Iraquiano e pedir-lhe desculpas por todos os crimes cometidos contra ele.”
Obama pode estar muito enganado

“O novo presidente dos EUA tinha prometido na campanha eleitoral retirar as tropas e acabar com a colonização do Iraque.
O texto de Obama diz: “Vou entregar o Iraque ao seu povo”.
Se o senhor Obama considerar que o povo do Iraque são o presidente do actual governo e as pessoas que o rodeiam – todos sabem que essas pessoas estão ao serviço da colonização –, então deve estar completamente enganado relativamente à realidade.

O Povo Iraquiano é representado pela Resistência Iraquiana e por aqueles que a apoiam que, como já disse, são 90% da população.

“Segundo as leis internacionais, neste momento não há nada legítimo no Iraque a não ser a Resistência.

O artigo 51º da Carta das Nações Unidas diz que, quando um país está colonizado por parte de outro Estado, a resistência é completamente legal e legítima. E tudo o que for feito pela colonização é ilícito.”

Uma invasão baseada em mentiras, uma ocupação ilegal e desumana

“A colonização americana foi um acto ilegal, baseado em razões que já se provou que eram erradas. Falou-se de armas de destruição massiva e já se provou que não havia essas armas. Quanto à relação entre o regime iraquiano e a Al-Qaida, já está provado que não havia nenhuma. Disse-se que eles foram lá para estabelecer a democracia porque tínhamos um regime ditatorial.

Essa democracia transformou-se em crimes e em roubo de receitas públicas, em violações das mulheres e falta de respeito pelos direitos humanos; deslocação de mais de 5.000 iraquianos, a maioria estudiosos, cientistas, levados a sair do país. Mais de 5.000 médicos, engenheiros, professores, assassinados. Mais de um milhão e meio de iraquianos mortos. Mais de três milhões de pessoas perseguidas, com a acusação de pertencerem ao Partido Baas – a maioria delas com nível universitário. Um milhão de viúvas e de órfãos.”

Destruição da economia, dos serviços e do ambiente

“As fábricas foram fechadas, foi desinstalada a maioria das máquinas e ninguém sabe onde estão. A maioria dos médicos e dos engenheiros, pessoas com possibilidade de produzir, estão no desemprego. A percentagem do desemprego é de 62%.
“Não há agricultura. Tudo é importado do Irão, da Síria, da Jordânia – mesmo bens de base como tomates, cebolas. Não há serviços. Não há electricidade há seis anos. Os geradores, básicos para ter electricidade, não podem funcionar porque não há energia. É irónico dizer-se que o Iraque está em cima de um lago de petróleo e nem sequer termos uma gotinha de combustível em casa para termos energia. Todas as fábricas de acessórios foram destruídas.

“Estão a roubar o petróleo bruto sem darem conta a ninguém; não há registo das quantidades de petróleo que estão a sair do Iraque.

Em 1989, o Iraque recebeu o prémio para o melhor sistema de saúde no Médio Oriente, dado pela Organização Mundial de Saúde, em função do número de médicos, do rendimento, dos diplomas, tendo em conta o número de hospitais existentes e os serviços oferecidos aos cidadãos. Já não havia doenças contagiosas no Iraque há muito tempo. Hoje, por causa das águas mal tratadas, começamos a ter epidemias, problemas do fígado, e outras doenças que já não tínhamos há muito tempo. O nível dos serviços médicos no Iraque está numa decadência total, e continua porque já não temos médicos, já foram mortos ou perseguidos mais de 7.000 médicos, a maioria deles estão fora do Iraque, nem temos meios básicos para prestar serviços médicos adequados às pessoas.


“O ambiente está completamente poluído por causa do urânio e do fósforo branco usado pelos americanos na invasão. Há muitos casos de pessoas com cancro ou com problemas genéticos.

“Como é que é possível, depois disto tudo, continuarem a dizer que estão lá para instalar a democracia?

O próprio George Bush admitiu que as informações que tinha para desencadear esta guerra eram informações erradas.”

O governo de Obama não está interessado em acabar com a colonização do Iraque

“Então, não seria justo, não seria o mínimo, o actual presidente admitir que esta guerra foi errada e pedir desculpa ao Povo Iraquiano?
A um país que foi completamente destruído?

Não é um direito do Iraque e dos iraquianos, segundo as leis internacionais, não é um direito da humanidade ver os responsáveis por estes crimes serem julgados?
E que o povo seja indenizado por tudo o que sofreu?

“O senhor Obama não admitiu o erro cometido com esta guerra no seu discurso, quando falou da situação no Iraque. Mas disse que vai deixar 50.000 soldados até ao fim de 2011.
O ministro da Defesa americano disse que é possível ficarem para além de 2011.

“O senhor Obama não falou dos mais de 200.000 soldados que não pertencem às forças armadas e que estão a actuar no Iraque.

Vão também sair até 2011?
Participam em todos os combates ao lado das forças armadas. Têm armas, tanques, aviões, capacidade para ferir as pessoas e garantir a segurança das cidades onde estão. Qual é o interesse de retirar 100.000 soldados e deixar mais de 200.000 – cuja morte não é anunciada nas fontes oficiais, porque não têm nacionalidade americana, mas são pagos pelas forças americanas para garantir a sua presença lá?

“Esta é a posição da Resistência perante o último discurso do senhor Obama.
Não falou do destino de 50 bases aéreas que estão no Iraque – três delas consideradas das maiores no mundo. Helicópteros e aviões militares. Milhares de soldados, conselheiros, responsáveis americanos colocados nos ministérios e nas instituições políticas do actual governo iraquiano. Que será feito desses? Vão continuar no Iraque?

“Não é isto suficiente para concluir que a administração Obama não está interessada em acabar com a colonização do Iraque?
E que vão continuar esta colonização sangrenta?
Então?
Acham que nós já não temos razão para continuar a nossa luta, a nossa Resistência?”

A Resistência continua

O Povo Iraquiano vai continuar a luta, sejam quais forem os sacrifícios e as perdas.Até à saída do último soldado americano. Este é o único caminho para nos salvarmos.

“Os americanos estão a retirar os soldados das ruas, porque têm medo da Resistência, mas passaram a utilizar aviões para se deslocarem dentro do território iraquiano. Ainda ontem houve um ataque a uma cidade e foram presos muitos cidadãos, com a explicação de que estavam ali responsáveis da Resistência, informações que têm através de pessoas que trabalham para as forças armadas americanas.

“Se a nova administração americana respeita a legislação internacional, se está mesmo interessada em respeitar os valores humanos e as exigências dos conflitos internacionais – tal como o senhor Obama disse na rádio, que ‘vai difundir os verdadeiros valores americanos’ –, então será uma prova de coragem assumir a responsabilidade desta guerra que o senhor Bush iniciou. E que respeite realmente os direitos do Povo Iraquiano. E que o Iraque e o seu povo sejam indenizados pelos danos que sofreram. E que se afastem completamente do Povo Iraquiano. E que tenham negociações com a Resistência Nacional Iraquiana. Para que possamos instalar um novo regime iraquiano democrático. Para que possamos evitar a presença iraniana e o terrorismo no nosso território.

“A Resistência Nacional, quando estiver no poder, vai lutar contra o extremismo iraniano e o terrorismo, para que o Iraque possa ter a sua serenidade. E toda a zona também. Para que possamos garantir todos os interesses dos países nesta região com um valor enorme para todos. Se acontecer o contrário, os conflitos vão continuar nesta zona. E toda a gente vai perder os interesses que tem naquela zona.”

O aliciamento de chefes de tribo para o lado dos EUA

Para tentarem suprir as enormes dificuldades que os impedem de controlar grandes regiões do país, os ocupantes lançaram em 2007 uma campanha de aliciamento de chefes tribais para, a troco de dinheiro, se encarregarem de organizar o enfrentamento e o policiamento locais contra a Resistência. É o chamado Movimento Despertar. Baseia-se numa estrutura tradicional das tribos, com costumes e chefes próprios, que o regime do Baas conseguira secundarizar num primeiro tempo, com a laicização do Estado e a democratização dos serviços e dos sistemas de educação, transportes e saúde pública. Todavia, durante os 12 anos de embargo imposto ao país, entre 1991 e 2003, o próprio Saddam recuperou essa estrutura do tecido social como forma de compensar o deperecimento do Estado central.
Questionado sobre o Movimento Despertar, Abu Mohamad disse que “os americanos não estão a conseguir resolver os problemas de maneira militar. Já não conseguem deter a Resistência. Sendo assim, têm de procurar outras soluções. Pagam milhares de dólares aos chefes de tribos iraquianas para conseguirem apoio. Distribuem armas e fazem alianças, a que chamam “Sahwat” [Despertar], com o objectivo de dividir o povo e fomentar a guerra civil. Incentivam estes chefes para que sejam eles a perseguir a Resistência Nacional Iraquiana. E usam o termo de sempre: “terroristas”.
Antes da colonização não se falava de terrorismo, não tínhamos nada a ver com as redes terroristas. O terrorismo veio com a colonização, com as tropas americanas.
A Resistência Nacional não tem nada a ver com o terrorismo. Está contra o terrorismo e luta com todos meios contra o terrorismo e os terroristas. Foram os americanos que implantaram o terrorismo no Iraque para tentarem destruir os primeiros movimentos da Resistência. Agora lançaram este movimento que se chama Sahwat, comprando os acordos com milhares de dólares, dizendo aos iraquianos que devem lutar contra o terrorismo.
Infelizmente algumas tribos iraquianas integraram-se nesta união porque nas suas regiões não há trabalho, não há nada para fazer. Como já foi dito, mais de 60% dos iraquianos estão desempregados.

“Nós já sabíamos que os americanos estavam a jogar esta carta para dividir o povo iraquiano. A maioria dos que fizeram parte desta organização Sahwat, já deixou de trabalhar a favor das forças americanas. O resto são pessoas que são mesmo compradas pelo dinheiro americano.”

Os sindicatos iraquianos

Questionado acerca da situação dos trabalhadores e do papel dos sindicatos no Iraque actual, Abu Mohamad respondeu: “Segundo a lei internacional, todas as organizações – políticas, desportivas, etc. – criadas pela colonização são ilegais e não têm legitimidade para funcionar. Com a colonização, todos os sindicatos iraquianos deixaram de existir. Não existem por causa de tudo o que aconteceu, a deslocação, a morte das pessoas, as condições complicadas que se estão a viver. E todos os partidos que vieram com a colonização ajudaram a dividir estas associações segundo os interesses de cada partido, independentemente do interesse geral. Chegaram a usar armas entre essas instituições, segundo o interesse dos partidos. Sendo assim, todas as instituições sindicais já estão destruídas.

“Além disso, os Iraquianos não precisam de sindicatos, sobretudo ao nível dos funcionários, dos trabalhadores e dos agricultores. Agora, para trabalhar, a única hipótese é fazer parte do corpo de polícia ou das forças armadas. Todas as fábricas foram destruídas. E o desemprego representa mais de 60%. Então qual é a nossa necessidade de ter sindicatos?

“A função principal dos sindicatos é defender os interesses dos trabalhadores e dos agricultores perante um regime político.
No Iraque, não temos o nosso regime, não temos o nosso Estado, e não temos trabalhadores nem agricultores. Esta é a nossa realidade no Iraque.”



terça-feira, 10 de junho de 2008

OCUPAÇÃO ILEGAL DO IRAQUE


IRAQUE: 5 anos de ocupação, 5 anos de resistência

Fatos e números sobre a ocupação do Iraque



Genocídio: mais de um milhão de iraquianos foram mortos desde o início da ocupação, dez vezes mais que os números oficiais. A principal causa de morte violenta é a actuação das forças de ocupação. Entre 1991 e 2003, tinham morrido já 2,7 milhões de iraquianos em consequência do embargo económico imposto pela ONU.

Refugiados: O Iraque é hoje o primeiro país do mundo em número de refugiados – 2, 5 milhões no interior e 2,2 milhões nos países vizinhos. Os mortos mais os refugiados atingem perto de um quarto da população iraquiana.

Pobreza extrema: 43% dos iraquianos vive com menos de 70 cêntimos por dia. 60 a 70% da população activa não tem trabalho.

Dependência: 6 milhões de pessoas necessitam de ajuda humanitária para sobreviver, o dobro de 2004.

Menos ajudas: apenas 60% dos iraquianos tem acesso a rações de alimentos governamentais. A cobertura era universal antes da invasão. Por pressão do Banco Mundial, a partir de Junho de 2008 este sistema de abastecimento será suprimido, assim como os subsídios aos carburantes.

Malnutrição infantil: metade dos menores de 5 anos sofre de malnutrição. O baixo peso dos recém-nascidos triplicou, atingindo 11% dos nascimentos.

Contaminação nuclear: em 1991 e em 2003 os EUA lançaram sobre o Iraque mais de 2500 toneladas de urânio empobrecido, em bombas e munições. Solos e reservas de água ficaram contaminados. Os efeitos vão perdurar por 4,5 mil milhões de anos.

Cancros e malformações: em consequência da radioactividade, aumentaram em flecha as malformações congénitas, as leucemias, as doenças da tiróide e o número de cancros. No sul do Iraque os cancros aumentaram 11 vezes entre 1988 e 2002. As malformações congénitas atingem 67% dos filhos de soldados norte-americanos que estiveram no Iraque.

Destruição de infraestruturas: 70% da população deixou de ter água potável e 80% não tem esgotos. O abastecimento de electricidade está reduzido a duas horas por dia. A cólera, que tinha sido erradicada, espalhou-se por metade das 18 províncias iraquianas.

Destruição do sistema de saúde: 2 mil médicos foram assassinados. Metade dos 34 mil médicos existentes em 2003 abandonou o país. Dos 180 grandes hospitais, 90% carece de recursos essenciais. Os hospitais foram transformados pelos esquadrões da morte em centros clandestinos de detenção, tortura e assassinato.

Destruição do sistema de ensino: mais de 800 mil alunos deixaram de ir à escola primária (22%) e só metade dos que completam a instrução primária iniciam o secundário. Outras 220 mil crianças refugiadas com as famílias em países vizinhos estão sem escola. Mais de 300 professores e professoras de todas as universidades do país foram assassinados. As milícias religiosas governamentais impuseram a segregação de sexos e o vestuário islâmico.

Destruição dos serviços públicos: já em 2006, 40% do pessoal qualificado iraquiano tinha abandonado o país, levando ao desmoronamento dos serviços.

Roubo de recursos: a produção de petróleo está deliberadamente sem controlo. Calcula-se que a exportação actual de petróleo iraquiano, dominada por empresas norte-americanas, atinja 2,1 milhões de barris por dia, menos meio milhão que antes da invasão. O Iraque tem de importar combustíveis para transportes e uso doméstico.

A fraude da “reconstrução”: em Agosto de 2007, o governo iraquiano tinha aplicado apenas 4,4% do orçamento de Estado para esse ano.

Prisões em massa: 24 mil iraquianos estão presos à guarda das forças dos EUA. Mais 400 mil estão detidos em prisões governamentais.

Guerra sem lei: além das tropas norte-americanas e de outros países ocupantes, actuam no Iraque 180 mil mercenários, não abrangidos por nenhuma lei internacional.

Resistência: permanecem no Iraque 158 mil soldados dos EUA. Segundo dados oficiais norte-americanos, mais de 4 mil foram mortos e 30 mil foram feridos – 82% dos quais em combate.

Programa de libertação nacional: nos últimos dois anos, vários agrupamentos da resistência, incluindo 40 organizações militares, uniram-se numa frente de liberação nacional. Adoptaram um programa democrático que prevê a retirada das forças ocupantes, a reconstrução das estruturas do Estado, a criação de um governo de unidade nacional e a aprovação, em referendo, de uma nova constituição.

Retirado de:
http://tribunaliraque.info/pagina/inicio.html



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http://pimentanegra.blogspot.com/2008/03/ocupantes-fora-do-iraque-5-anos-de.html

domingo, 16 de março de 2008

PARA QUE SERVEM AS NAÇÕES UNIDAS?

CARTA DE RAMSEY CLARK À ONU

As Nações Unidas devem atuar para impedir um ataque dos Estados Unidos ao Iraque
A carta a seguir foi redigida por Ramsey Clark, ex-ministro da Justiça (Attorney General) dos EUA. Ela foi enviada a todos os membros do Conselho de Segurança da ONU,com cópias para a Assembleia Geral da ONU e para o senador Biden, da comissão senatorial para as relações estrangeiras.
Agradece-se a sua divulgação.
29 de Julho de 2002
Senhor Embaixador: Qualquer esperança para os povos do mundo de ver as gerações futuras preservadas do flagelo da guerra graças às Nações Unidas seria liquidada com um novo ataque dos Estados Unidos contra o Iraque.
As ameaças de atacar, invadir e derrubar o governo do Iraque efectuadas pelo presidente George Bush, pelo vice-presidente Cheney, pelo secretário da Defesa Rumsfeld e por diversos responsáveis de gabinete e oficiais do Pentágono, constituem uma rotina desde há um ano.
A própria guerra psicológica é um crime contra a paz e viola a carta das Nações Unidas.
A manchete do New York Times de hoje, "Os EUA consideram um ataque a Bagdad como uma das opções no Iraque", é característica da intenção terrorista destas ameaças.
O perigo resultante de tal ataque seria enorme para a população civil.
As Nações Unidas devem agir a fim de impedir um ataque ao Iraque pelos Estados Unidos.
Se as Nações Unidas não forem capazes de deter os Estados Unidos, um membro permanente do Conselho de Segurança, de impedir que cometa crimes contra a paz e a humanidade bem como crimes de guerra para com uma nação que já sofreu para além de todos os limites em consequências de agressões americanas, então para que servem as Nações Unidas?
A oposição a todo ataque ou tentativa de derrubar o governo iraquiano pela força deve, e isto é o mínimo que se exige, ser expressa publicamente pelas Nações Unidas.
Os Estados Unidos bombardearam impiedosamente um Iraques em defesas durante 42 dias no ano de 1991.
Os Estados Unidos conduziram um assalto maciço ao Iraque em Janeiro e Fevereiro de 1991.
O Pentágono anunciou que havia efectuado 110 mil saídas aéreas contra o "berço da civilização", lançando 88500 toneladas de bombas.
Estes bombardeamentos em grande escala destruíram a viabilidade económica da sociedade civil em todo o país.
Eles mataram dezenas de milhares de cidadãos iraquianos.
Uma parte essencial dos bombardeamentos foi dirigida contra oscivis e contra instalações civis.
Foram menos precisos do que os recentes ataques indiscriminados contra o Afeganistão.
As bombas americanas destruíram sistemas de abastecimento de água, redes de transporte de electricidade, meiosde comunicação e de transporte, indústrias, comércios,instalações agrícolas, aviários e gado, armazéns dealimentos,mercados, fábricas de fertilizantes e de insecticidas,centros de negócios, tesouros arqueológicos e históricos,apartamentos, zonas residenciais, escolas, hospitais,mesquitas, igrejas e sinagogas.
O Pentágono afirmou que as suas perdas elevaram-se a 156 pessoas.
Um terço das suas perdas deveram-se aos próprios tiros americanos; o restante foi acidental.
Os Estados Unidos não sofreram perdas em combate.
Os Estados Unidos forçaram a imposição de sanções genocidas ao Iraque em 1990.
Os Estados Unidos elaboraram sanções económicas contra o Iraque, que o Conselho de Segurança aprovou em 6 de Agosto de 1990, 45º aniversário do ataque nuclear americano contra Hiroshima.
Estas sanções foram a causa directa das mortes cruéis de mais de um milhão de pessoas.
Este é o maior crime contra a humanidade desta última década do século XXI, a mais violenta da história.
Cada uma destas mortes dolorosas de pessoas a morrerem de desnutrição, "kwashiorkor" , ataque de desidratação provocado pela água contaminada, ou de doença, poderia ter sido impedida.
As sanções persistem até hoje e causam centenas de mortos por dia.
Cada agência das Nações Unidas que trata dos problemas da alimentação, da saúde e da infância, como a FAO, o Plano Alimentar Mundial, a OMS, a Unicef, proclamou já o horror, a dimensão e a responsabilidade por esta catástrofe humana.
A grande maioria das vítimas das sanções são crianças,pessoas idosas, doentes crónicos e casos médicos urgentes.
São as pessoas mais vulneráveis à água poluída, à desnutrição e à falta de medicamentos e equipamentos médicos.
As afirmações americanas de que seria o governo iraquiano o responsável pelas mortes por falta de alimentos e de medicamentos são falsas.
Os Estados Unidos bloquearam as vendas de petróleo ao Iraque durante seis anos, antes de fingir que se submetia a imperativos humanitários autorizando vendas de petróleo para compra de alimentos e medicamentos.
Desde 1997, quando começaram as vendas, os EUA de facto sabotaram e retardaram o programa "petróleo contra alimentos", que não proporciona receitas suficientes para travar a deterioração diária da saúde e o crescimento das taxas de mortalidade no Iraque.
Antes das sanções não havia virtualmente qualquer desnutrição no Iraque e o seu sistema de saúde, seus hospitais e medicamentos gratuitos constituíam um modelo para a região.
O seu sistema governamental de distribuição de gêneros alimentares é um modelo de equidade e de eficácia, faltando só quantidade e variedade de alimentos.
A aviação militar americana atacou o Iraque à vontade durante 11 anos.
Os Estados Unidos efectuaram ataques aéreos contra o Iraque totalmente à vontade desde Março de 1991, quando tiveram fim os ataques maciços que se verificavam ao ritmo de uma saída aérea a cada 30 segundos.
Sem perderem um único avião, os ataques americanos mataram, dentre outros: pessoal da limpeza no hotel Al Rashid de Bagdad a quando de uma tentativa de assassinar Saddam Hussein; um grande número de pessoas a cada ano nos ataques contra estações de radar nas zonas de exclusão aérea impostas pelos EUA; todas as pessoas a bordo de um helicóptero da ONU abatido por um avião americano; civis de todas as categorias, inclusive a artista de fama internacional e directora do Centro Nacional de Artes do Iraque, Leilaal Attar.
O Iraque não constitui uma ameaça para os EUA, para os países da região ou para outros países.
Os EUA têm afirmado falsamente que o Iraque trabalhava no desenvolvimento de armas de destruição maciça a fim de atacar os EUA, Israel, seus vizinhos e outros países.
Os EUA afirmaram que os seus ataques de 1991 destruíram 80% da capacidade militar iraquiana.
Os inspectores da ONU afirmaram ter descoberto e desmantelado 90% da capacidade iraquiana (depois de 1991) para o desenvolvimento de armas de destruição maciça.
O Iraque, seu povo e os seus recursos estão esgotados.
O Iraque possui uma geração"raquítica" de crianças com idade inferior a 10 anos e uma população de todas as faixas etárias que está enfraquecida.
Ele é a vítima do pior crime contra a humanidade das últimas décadas.
Os EUA são o maior vector de violência no planeta Terra.
Dois dos oficiais mais altamente colocados das Nações Unidas como responsáveis pelas inspecções de armamento da ONU no Iraque e um cidadão americano honesto que participou nas inspecções demitiram-se, denunciando as sanções e negando que exista uma ameaça de o Iraque desenvolver armas de destruição maciça.
Os EUA possuem mais armas nucleares do que todas as outras nações reunidas do mundo, bem como os sistemas mais refinados e mais numerosos para o lançamento de armas nucleares,inclusive a frota submarina dos Trident II. Possuem os maiores stocks de armas químicas e biológicas e desenvolvem a investigação mais avançada e mais extensa sobre as armas de destruição maciça no mundo.
As despesas militares dos EUA excedem a dos nove mais importantes orçamentos militares seguintes em conjunto.
O presidente Bush proclamou por diversas vezes o seu direito de atacar em primeiro lugar (first strike) .
Os EUA atacaram Hiroshima e Nagasaki com bombas atómicas e continuam a justificar tais actos.
Os EUA denunciaram os tratados que controlam as armas nucleares e a sua proliferação; votaram contra o protocolo permitindo a execução das convenções regulamentando as armas biológicas, rejeitaram o tratado banindo as minas anti-pessoal, o Tribunal Criminal Internacional e virtualmente todos os outros esforços internacionais para controlar e limitar a guerra.
A guerra americana contra o terrorismo é uma proclamação do direito dos EUA de atacarem não importa quem, não importa onde, à simples suspeita, ousem desculpa, unilateralmente.
Os EUA desejam derrubar o governo iraquiano e muitos outros violando a lei.
Se esta política não for restringida, as possibilidade de desenvolver a paz e a igualdade global das possibilidades econômicas, sociais, culturais e políticas entre as nações estarão perdidas.
Que outro governo apresenta a maior ameaça para paz, globalmente ou para a Mesopotamia e os seus vizinhos — os Estados Unidos ou o Iraque?
Um ataque dos Estados Unidos contra o Iraque para derrubar o seu governo constituiria uma violação flagrante da Carta da ONU, da Carta de Nuremberg e da lei internacional.
Se, como é frequentemente prometido, os EUA atacarem o Iraque para derrubar o seu governo isto constituirá a violação mais evidente, mais arrogante e mais desprezível já conhecida desde sempre da Carta das Nações Unidas, da Carta de Nuremberg e da legislação internacional.
Porque os EUA cometeram injustiças históricas para como Iraque, a maior parte delas durante a presidência de Georges Bush pai, e ainda perseguem o domínio da região.
O presidente Bush, seu vice-presidente e os outros membros da administração detestam o Iraque e querem destruí-lo.
Escrevo esta carta, a cada membro do Conselho de Segurançada ONU, ao presidente de Assembleia Geral e ao presidente Bush.
Esta é uma da série de carta que protestam contra as malfeitorias dos EUA e da ONU contra o Iraque.
A ameaça aqui descrita é a pior.
Se, 12 anos depois dos seus ataques aéreos devastadores e 12 anos depois das sanções genocidas infindáveis contra vítimas indefesas os EUA dão o golpe de graça no povo iraquiano sob o silêncio das Nações Unidas e dos países ricos, a vergonha e a impotência humana condenar-nos-ão a violências sempre cada vez maiores.
Um ataque americano ao Iraque causará mais violência; é exigida a acção urgente da Nações Unidas para impedirem ataque americano ao Iraque.
Imploro que alertem imediatamente as Nações Unidas,a Assembleia Geral, o Conselho de Segurança e todas as suas agências a fim de denunciar as persistentes ameaças americanas contra o Iraque, de exigir a cessação imediata das ameaças e para advertir os Estados Unidos de que um ataque ao Iraque violaria a Carta das Nações Unidas, a legislação internacional e a amizade de todos aqueles que procuram a paz e o respeito da dignidade humana.
Um ataque americano ao Iraque violaria a Constituição e as leis dos Estados Unidos, exigindo o impeachment do presidente Bush e de todos os responsáveis perante o Senado americano e os Tribunais federais. Infelizmente, nestes últimos anos, mais frequentemente assistiu-se a violações da nossa Constituição do que respeito fiel aos direitos de todos os cidadãos que ela deve proteger.
Mas aqueles que amam o seu país e que, por isso, insistem em que o seu país aja com justiça, esforçar-se-ão por fazer com que preste contas toda autoridade americana que participar num ataque contra o Iraque.
As Nações Unidas devem actuar para impedir um ataque dos Estados Unidos ao Iraque.
Ramsey Clark
O original deste documento encontra-se em InternationalAction Center

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

DEMOCRACIA E TERRORISMO

Democracia e terrorismo: os equívocos iraquianos
Paulo Casaca
[28-11-2007]
Foi com o maior atentado terrorista até hoje cometido que o presidente norte-americano deu uma volta completa ao seu discurso e programa de acção.
De um programa muito próximo da tradição isolacionista republicana temperada por algum intervencionismo "real-politik" com que se tinha apresentado ao eleitorado passou para a problemática da democracia no Médio Oriente como forma de combate ao terrorismo.

Essa viragem, que foi apenas esboçada com a intervenção no Afeganistão, em que, mais do que qualquer preocupação ideológica, o bom senso realista ditava que não era possível tolerar a organização de operações de guerra como a do 11 de Setembro a partir de um Estado legalmente constituído, assumiu-se na sua plenitude com a operação militar do Iraque e o aumento da pressão sobre todo o Médio Oriente no sentido da democratização.

Se bem que seja ainda cedo para fazer um balanço final dessa política, não há hoje ninguém, incluindo George Bush, que não tenha concluído que ela até agora falhou espectacularmente.

Muitas razões foram avançadas até hoje para explicar o falhanço, mas ninguém parece ter até hoje olhado com atenção para o aspecto essencial da equação: a forma como o terrorismo foi promovido em nome da democracia no Iraque.

É certo que já em 2005 o relatório oficial do Congresso Norte-Americano sobre o 11 de Setembro concluía que não se tinha provado nenhuma relação orgânica entre o regime de Saddam e a "Al-Qaeda", contrariamente ao que se poderia constatar acontecer entre essa organização e o Irão.
Realmente, quem olhar para a principal biografia não autorizada de Zarkaoui (Brisard, Jean-Charles, Zarkaoui, Le nouveau visage d'Al-Qaida, Fayard, 2005) constata que este passou os anos que antecederam a formação da "Al-Qaeda no Iraque" entre o Irão e a Síria.
A opinião de que a "Al-Qaeda no Iraque" obedece a Teerão é, de resto, unanimemente partilhada pelos dirigentes de todas as facções parlamentares iraquianas que são conhecidas como "sunitas" e que são, não por acaso, o alvo privilegiado desta organização.

O terrorismo tal como definido pelo antigo secretário geral das Nações Unidas Kofi Annan, como violência política dirigida contra não combatentes – ultrapassa em muito o quadro desta organização mais mediática, e tornou-se um verdadeiro fenómeno de massas no Iraque quando um dos líderes das brigadas Badr (Bayan Jabr) se tornou Ministro do Interior e promoveu o rapto, tortura e execução de milhares de civis pelas brigadas infiltradas nas forças de segurança, utilizando para isso não só os recursos oficiais mas também uma extensa rede de cárceres privados.

As brigadas Badr são identificadas – no que a meu ver continua a ser a melhor obra global sobre o fanatismo terrorista fanático (da autoria da equipa dirigida pelo juiz Galeano como acusação pelo atentado terrorista de Buenos Aires de 1994, e que neste particular toma acertadamente o maior especialista teórico na matéria, Bruce Hoffman, Inside Terrorism) – como a primeira organização de "terrorismo religioso".

Fundadas, organizadas, dirigidas e financiadas no Irão, e de resto constituídas e dirigidas em larga medida por nacionais iranianos, tendo por primeiro dirigente nomeado pelo Ayatollah Khomeiny, o actual responsável pelo sistema judiciário iraniano, Hashemi Shahroody, as brigadas Badr são a organização gémea do Hezbollah libanês.

Tal como testemunhado por dirigentes da resistência iraniana Ahwazi, as casernas de ambas as organizações situavam-se lado a lado no Ahwaz (Sudoeste do Irão, maioritariamente árabe) e eram treinadas ideológica e militarmente pelos mesmos guardas revolucionários iranianos.

O Hezbollah libanês, recorde-se, foi de longe a organização que mais cidadãos norte-americanos matou até ao 11 de Setembro.
O líder do Hezbollah libanês, Husseini Nazrallah é primo direito de Bakr Al-Hakim, dirigente do "Conselho Superior da Revolução Islâmica no Iraque" (SCIRI, no acrónimo inglês) ramo político das brigadas Badr durante a invasão de 2003.

A Resistência Iraniana revelou recentemente a lista nominativa de 31.690 operacionais das brigadas Badr que já antes de 2003 eram simultaneamente membros do destacamento Jerusalém dos Guardas Revolucionários Iranianos (departamento iraniano para o terrorismo no exterior) e que continuam a ser pagos enquanto tal.

As brigadas Badr – ou o seu ramo político SCIRI – constituíram o núcleo duro das forças "iraquianas" organizadas pelos EUA para tomarem conta do Iraque após a invasão, lado a lado do "Congresso Nacional Iraquiano", organização que apesar de contar com muitos expatriados iraquianos democratas era dirigida por Ahmed Chalabi, figura próxima de Teerão. Da mesma coligação fizeram parte também as forças curdas.

Charles Glass (The Northern Front, A wartime diary) explica a organização dessas forças no Curdistão iraquiano no final de 2002, entradas pela fronteira com o Irão sob escolta dos guardas revolucionários iranianos. Quando da invasão, Glass estima em 3.000 homens os efectivos das brigadas Badr no Curdistão.
A revista Time (Time Magazine, 22 de Agosto, 2005 vol. 166 nº 8) descreve a forma como os muitos milhares de membros das brigadas Badr procederam à ocupação efectiva do Sul do Iraque na retaguarda do avanço americano. De facto, foi logo a partir daí que estas ocuparam posições nas administrações públicas e começaram a execução sumária dos opositores.
Lado a lado com o SCIRI, os EUA colocaram também no poder o partido Al Dawa, movimento político iraquiano relativamente antigo com numerosas facções, quase todas elas com fortíssimos laços com Teerão.

O Al Dawa tornou-se internacionalmente conhecido pelo ataque terrorista que desencadeou contra a Embaixada dos EUA no Kuwait por encomenda iraniana em 1983.
Há dias, esse evento foi recordado quando as autoridades kuwaittianas pediram a extradição de um dos condenados por esse ataque terrorista, Jamal Ebrahimi (também conhecido pelo seu nome de guerra, Abu-Mohandes) actualmente deputado e dirigente da chamada coligação xiita no Iraque, colega de partido do Primeiro-Ministro do Iraque e que se acolheu no Irão quando o pedido de extradição foi endereçado às autoridades iraquianas.

Quem ler a biografia não publicada de Nouri Maliki, actual Primeiro Ministro iraquiano pelo partido Al Dawa, verá também que este esteve de 1979 a 1987 no "Shahid Sadr Hezb al-Dawa" batalhão estacionado no Ahwaz e, sob a supervisão dos guardas revolucionários iranianos, responsável por ataques terroristas como o de 1983 no Kuwait.
Paralelamente a estas duas facções, a coligação xiita no poder no Iraque tem ainda como forças mais importantes duas milícias conhecidas pelas actividades terroristas que, contrariamente às outras duas, têm também por alvo directamente as forças norte-americanas.

Para além do terrorismo promovido pela Al-Qaeda e pela aliança xiita, existe também a violência e actos de terrorismo promovidos pela chamada resistência, que tem apoio na camada da população designada por sunita e que, hoje em dia, se assume tanto como resistência contra a ocupação declarada americana como contra a ocupação não declarada iraniana.

Se tivermos em conta que a coligação iraquiana no poder depois da invasão terá saneado cerca de dois milhões de funcionários, entre os quais centenas de milhares de membros das anteriores forças de segurança – que constituíram portanto uma fonte de recrutamento privilegiada para essa resistência – podemos compreender como ela é fruto directo da mesma política com que foi gerida a ocupação do Iraque.

Os dirigentes americanos têm-se esforçado para tapar o Sol com uma peneira, recusando reconhecer a evidência de que
(1) a razão pela qual existe uma encarniçada resistência no Iraque mais do que à maldade congénita do baathismo, se deve ao facto de não ter sido dada outra alternativa às elites dirigentes do país;
(2) tal como no Irão, os discursos simpáticos de alguns dirigentes dos partidos pró-iranianos são apenas a outra face do terrorismo promovido pelos seus colegas de coligação, não havendo entre eles qualquer divergência substantiva.
As principais organizações iraquianas que os EUA chamaram para "democratizar" o Iraque são organizações fanáticas, dirigidas por Teerão, envolvidas em actos de terrorismo, nomeadamente contra alvos americanos.

A verdade nua e crua é assim a de que as forças da coligação ocidental promoveram a destituição de um ditador e a destruição do Estado iraquiano – um e outro sem ligações ao terrorismo fanático contemporâneo – fazendo-os substituir pelas principais forças do terrorismo, paradoxalmente, em nome da "luta contra o terrorismo" e da "promoção da democracia".

Para além das inevitáveis teorias da conspiração que se alimentam deste encadeamento extraordinário de factos, e ao fim de vários anos que tenho dedicado a tentar perceber este fenómeno, cheguei à conclusão de que ele se deve acima de tudo à ignorância ocidental sobre a realidade do Grande Médio Oriente, que o tornou presa fácil da manipulação.

Recentemente George Bush começou enfim a dar sinais muito ténues de querer entender a realidade do Iraque, afirmando a necessidade de uma estratégia de "containement" do regime iraniano, prendendo mesmo alguns iranianos ou de obediência iraniana com lugares ministeriais, estratégia que qualquer elementar bom-senso ditava que tivesse seguido desde o início.
Para que a estratégia da "democracia para o Médio Oriente" possa vir a ser retomada e para que haja um futuro para o Iraque é essencial deixar de tratar os que querem a democracia como terroristas, e os terroristas como os que querem a democracia.
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publicado por nucleargmo

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

CRIMES DE GUERRA CONTRA O POVO IRAQUIANO

"La paz no llegará a Iraq mientras la ocupación persista"

"El invasor sigue cometiendo crímenes de guerra y genocidio contra el pueblo iraquí"

http://www.nodo50.org/iraq/24_01_08_Balance_Global_Policy.html

Sinceramente, como pode um país (EUA) que se diz ser de "Primeiro Mundo" cometer e permitir que se cometam tantas atrocidades e matança desenfreada no Iraque?

UM GENOCÍDIO QUE QUEREM OCULTAR DO MUNDO!!!!

QUE VERGONHA!

LIBERDADE PARA OS PRISIONEIROS DE GUERRA E DETENTOS IRAQUIANOS

Detenidos iraquíes durante la invasión del país en 2003
Muchos de los iraquíes, civiles o militares, entonces apresados por las tropas británicas y estadounidenses están en paradero desconocido tras casi cinco años
(foto: Sean Smith)

:: Represión
EEUU estudia transferir los presos iraquíes al gobierno colaboracionista de al-Maliki


(IraqSolidaridad: 30-01-08)

Asociación de Diplomáticos Iraquíes

“Iraq sigue todavía bajo la ley del poder ocupante y, por lo tanto, los preceptos de la ley internacional humanitaria siguen siendo aplicables a los prisioneros de guerra iraquíes y a los detenidos posteriores en centros de detención bajo mando estadounidense.”