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quinta-feira, 24 de abril de 2008

A RESISTÊNCIA DO POVO IRAQUIANO

“A resistência é cem por cento iraquiana”

`Al-Quds al-Arabi`- CSAweb (www.nodo50.org/csca)
A resistência parte da idéia de libertação nacional, não da lealdade a uma determinada figura

A resistência é uma realidade sobre a qual todos estamos curiosos, mas muitos querem saber quem são vocês.


A resistência é 100% iraquiana.

Abarca diferentes correntes e pessoas de distintas profissões: intervêm nela o Partido do Movimento Islâmico, o Partido Ba'az, nasseristas, setores do exército e da polícia, médicos, engenheiros, docentes, artistas, desportistas, estudantes e camponeses, inclusive, há um amplo apoio de iraquianos sunitas, xiitas, árabes e curdos.

Portanto, não é correto que se falem de Bin Laden ou de qualquer outro sem que isto signifique questionar sua Jihad (Guerra Santa).

Nós iraquianos temos capacidade e possibilidade de lutar e não necessitamos de forças que, além disso, estão cercadas no Afeganistão.

Nosso desejo é que os ianques e os britânicos sejam derrotados em todas as partes.


Mas isto não afetará o movimento (da resistência)?


Quando dissemos que o povo está conosco, não quer dizer conosco dentro da organização.Está conosco no sentido de que nos facilita o passo, o movimento. Porém a organização encontra-se estruturada de tal maneira que uma célula (ou um grupo) está a salvo caso sejam detidos membros de outra (ou de outro grupo).


Quantos resistentes foram detidos?


Nenhum.Todos os detidos (pelas forças de ocupação) são do povo, mas nenhum deles está vinculado à resistência.


Alguns civis caíram vítimas em algumas operações. Como isso pode ser explicado?

Só temos atuado contra as forças criminosas de ocupação, e não temos atacado a nenhum civil.


Que papel desempenham Saddam Hussein e Izzat Ibrahim al-Duri1?


A direção da resistência aprecia o papel militante de ambos, mas a resistência parte da idéia de libertação nacional, não da lealdade a uma determinada figura.


Enfrentamentos no campo xiita


Qual é a sua opinião sobre o assassinato de Baker al-Hakim2?

Há uma luta interna recaldada entre os clérigos xiitas pelo controle da al-Hawza3 e por ganhar influência, que foi o que conduziu ao assassinato de al-Hakim, dias depois que retornara ao Iraque com as forças de ocupação.

Al-Hakim era um colaboracionista dos ocupantes e trabalhava para os serviços secretos ianques e britânicos desde muito tempo. Segundo a informação de que dispomos, foi um grupo vinculado ao Irã que o matou. Não é o momento adequado para revelar o nome do grupo.


O Conselho Governativo faz parte de seus objetivos militares?


Todos os que colaboram com a ocupação são traidores e, portanto, objetivos legítimos de nossa luta, tal como estipulou o editor religioso, fatwa (sentença de morte proferida contra um inimigo do islamismo).


Além de vocês há alguma outra parte implicada na resistência?


Sim há. Porém, 95% das operações foram levadas a cabo por nós mesmos: entre 32 e 40, diárias, que deixam uma média de 12 soldados ianques e britânicos mortos.


Por que a impressão de que somente há resistência na zona sunita?


O Iraque é um só país e temos nossa maneira de eleger o momento e o lugar adequados para realizar nossas operações.



O Iraque é para todos: árabes, curdos e turcomanos; sunitas e xiitas.

Nos próximos dias vamos ampliar nossas ações a cidades como as-Sulaymania, Arbil, Dahuk, Anajaf, Amara e a as-Samwa.


Existe uma direção central da resistência?


Sim. Existe e tem um plano elaborado com minúcias e realismo para dirigir as operações militares em todo Iraque.


Que opinião tem sobre as últimas declarações de Mohamed Said as-Sahaf4 sobre os dias da guerra e do que ocorria então?


Se supõe que há determinados segredos que não se podem revelar antes que passe certo tempo, e o irmão as-Sahaf o sabe muito bem, mas desconheço seu ponto de vista ao decidir revelá-los em público. Eu pessoalmente não estou contra ele, porém alguns membros da direção (da resistência) pensam que deveria ter guardado silêncio sobre determinados assuntos, sobretudo porque a cadeia árabe de TV que emitiu suas declarações está a serviço das forças de ocupação.


Qual é a sua avaliação da postura da Síria e do Irã?


A Síria não ganhou nada depois de haver guardado estes traidores e espiões5, e de ter financiado, do mesmo modo que o fizeram Kuwait, Arábia Saudita, Irã e Jordânia, além do Reino Unido. O Irã não se enfrentará nem com USA nem com Israel6. O Irã conspirou contra os taleban e contra o Iraque, dando resposta às demandas ianques. A denúncia ianque sobre o desenvolvimento de armas de destruição em massa no Iraque é uma mera encenação. Não há nenhum regime árabe ou não-árabe vizinho ao Iraque que apóie a resistência iraquiana.


E sobre a posição da Jordânia?


Não vale a pena mencionar o esquálido regime jordaniano: esteve distraindo o Iraque nos primeiros dias da agressão ao permitir a entrada de unidades do exército ianque através de suas fronteiras. Este regime entregou militantes da Arábia Saudita ao USA para que se enfrentem até a morte, e agora se dedica a interrogar iraquianos (exilados) para obter informação sobre a resistência e entregá-la aos ianques.


E sobre os países do Golfo?


Sempre apoiaram o ocupante. São os que estão alimentando as forças de ocupação. Nestes países há forças patrióticas, nacionalistas e islamitas, mas estão reprimidas.(...)


E com que apoio conta a resistência, então?


Contamos com ajuda de Deus, com o apoio do povo iraquiano e esperamos que com a do povo árabe e de suas forças, com as do mundo muçulmano e com as de todos aqueles povos livres do mundo que estão ao lado da luta do povo do Iraque. Só necessitamos de gestos como o boicote aos produtos do USA, Reino Unido, Israel e dos países que participam na ocupação de nosso país, como Espanha, Polônia e Itália, ou o Japão, se chegar (finalmente) a mandar tropas. Também pedimos que se boicote aos traidores.




21 de novembro de 2003


1 Izzat Ibrahim ad-Duri, vice-presidente do Conselho da Revolução do Iraque no momento da ocupação do país, e ainda não detido, recentemente foi apresentado pelo Pentágono como coordenador das ações da resistência iraquiana. Doente de leucemia (o que limita a credibilidade de que possa ser um eficaz coordenador da resistência), o Pentágono oferece 10 milhões de dólares por sua captura. No dia 26 de novembro as tropas de ocupação detiveram em Sumarra sua mulher e uma de suas filhas.

2 Baker al-Hakim, dirigente do Conselho da revolução Islâmica no Iraque, estabelecido no Irã até seu regresso ao Iraque, representava os setores convictos xiitas favoráveis à invasão do Iraque, havendo participado nas reuniões mantidas no transcurso do ano anterior com representantes da administração Bush. Al-Hakim morreu num atentado em Najaf em 29 de agosto, junto a mais de 100 pessoas.

3 Máxima instituição religiosa xiita.

4 Mohamed Said as-Sahaf – ministro da Informação no momento da invasão do Iraque (antes o foi de Exteriores) –, reiterou as considerações vertidas depois da ocupação por alguns meios árabes de que certos altos mandos militares (da Guarda Republicana, concretamente) e dos serviços de informação iraquianos haviam feito pacto com o USA, não opondo resistência militar a invasão, concretamente em Bagdá.

5 Parte da oposição iraquiana ao deposto regime estava assentada na Síria.

6 O presidente iraniano Jatamí recebeu no dia 10 de novembro a Jalal Talabani, presidente de turno do Conselho Governativo iraquiano, e a outros nove membros desta instância designada por Bremer, no que supõe um reconhecimento oficial por parte do Irã (Europa Press, 24/11/ 2003).

http://www.anovademocracia.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=942&Itemid=62

domingo, 23 de março de 2008

O IRAQUE FOI ASSASSINADO

Noam Chomsky e a guerra omitida nos EUA

Há uma voz que falta no debate sobre a guerra: a dos iraquianos.
Ou melhor: ela não é digna de ser mencionada. E parece que ninguém se importa. Isso tem sentido na habitual presunção tácita de quase todos os discursos sobre política internacional: somos donos do mundo, o que importa, então, o que outros pensem?
Por Noam Chomsky, para a Agência Carta Maior
Não faz muito tempo, ainda se dava por descontado que a guerra do Iraque seria o tema central na campanha presidencial, como já foi nas eleições da metade do mandato, em 2006.
Mas praticamente desapareceu, o que tem provocado uma certa perplexidade.
Não deveria ser assim.
O "The Wall Street Journal" esteve perto de acertar em um artigo de primeira página sobre a Super Terça-feira, aquele dia de múltiplas primárias:
"Os temas passam ao segundo plano na campanha de 2008 na medida em que os eleitores vão se focando na personalidade".
Para colocar a coisa de maneira mais específica, os temas deixam de estar em primeiro plano, enquanto os candidatos e suas agências de relações públicas se concentram na personalidade.
Como de costume, os temas podem ser perigosos.
A teoria democrata progressista sustenta que a população ("marginais ignorantes e intrometidos") deveria ser "espectadora" e não "partícipe" da ação, como escreveu Walter Lippmann.
Os partícipes estão conscientes de que ambos os partidos políticos estão bem à direita da população e de que a opinião pública é consistente através do tempo, assunto analisado no útil estudo "A falta de conexão da política exterior", de Benjamin Page e Marshall Bouton.
É importante, então, que a atenção seja desviada para outro lado.
O trabalho concreto do mundo é do domínio de uma liderança iluminada.
E isso revela-se mais na prática do que nas palavras.
O Presidente Wilson, por exemplo, afirmou que se devia empoderar uma elite de cavalheiros de "altos ideais" para preservar a "estabilidade e a correção", essencialmente na perspectiva dos Pais Fundadores (dos Estados Unidos).
Em anos mais recentes, esses cavalheiros transmutaram-se na "elite tecnocrática", "intelectuais de ação", os neocons "straussianos" de Bush II e outras configurações.
Para esta vanguarda, as razoes de que o Iraque seja retirado da tela do radar não deveriam ser obscuras.
Foram convincentemente explicadas pelo distinguido historiador Arthur M. Schlesinger, articulando a posição dos "pombas" há 40 anos, quando a invasão do Vietnã pelos Estados Unidos estava em seu quarto ano e Washington se preparava para somar outros 100 mil efetivos militares aos 175 mil que já estavam deixando o Vietnã do Sul em cacos.
Na época, a invasão implicava em árduos custos, razão pela qual Schlesinger e outros liberais da linha de Kennedy resistiam-se a passar de falcões a pombas.
Em 1966, Schlesinger escreveu que "todos oramos" porque os falcões tenham razão ao pensar que o aumento militar do momento poderá "eliminar a resistência" e, se fizer isso, "todos poderíamos estar saudando a sabedoria e a capacidade estadista do Governo" ao obter a vitória, deixando ao mesmo tempo o "trágico país destruído e devastado pelos bombardeios, arrasado pelo napalm, transformado em uma terra baldia pela defoliação química, uma terra em ruínas", com seu "tecido político e institucional" pulverizado.
Mas a escalada provavelmente não terá êxito e vai acabar sendo cara demais para nós; ou seja, que talvez seria necessário repensar a estratégia.
Na medida em que os custos começaram a subir severamente, logo ocorreu que todos tinham sido "ferrenhos opositores à guerra".

O raciocínio da elite e as atitudes que o acompanham apresentam hoje poucas mudanças.
E apesar de que as críticas à guerra do Iraque são muito maiores e estão mais estendidas que no caso do Vietnã em qualquer etapa comparável, os princípios que Schlesinger articulou continuam vigentes.
E ele mesmo adotou uma posição muito diferente perante a invasão do Iraque. Quando as bombas começaram a cair sobre Bagdá escreveu que as políticas de Bush são "alarmantemente similares à política que o Japão imperial aplicou em Pearl Harbor, em uma data que, como disse um Presidente americano anterior, vai perdurar na infâmia."
Franklin D. Roosevelt tinha razão, mas hoje somos nós que vivemos na infâmia".
Que o Iraque é "uma terra em ruínas" não é questionável.
Recentemente a agência britânica Oxford Research Business atualizou sua estimativa de mortes adicionais causadas pela guerra em 1,03 milhões, excluindo Karbala e Anbar, duas das piores regiões.
Seja correta essa estimativa, ou exagerada, segundo alguns, não há dúvida de que o balanço é horrendo.
Vários milhões de pessoas estão deslocadas internamente.
Graças à generosidade da Jordânia e da Síria, os milhões de refugiados que fogem do colapso do Iraque, incluindo a maioria profissional, não foram, simplesmente, exterminados.
Mas essa acolhida fica enfraquecida porque a Jordânia e a Síria não recebem nenhum apoio significativo de parte dos autores dos crimes em Washington e Londres;
a idéia de que eles possam admitir essas vítimas, para além de casos pontuais, é estapafúrdia demais para ser considerada.
A guerra sectária devastou o Iraque.
Bagdá e outras áreas foram submetidas a uma limpeza étnica brutal e deixadas em mãos de senhores da guerra e de milícias, a primeira cartada da atual estratégia de contra-insurgência desenvolvida pelo general Petraeus.

Um dos mais informados jornalistas que se aprofundaram na chocante tragédia, Nir Rosen, publicou recentemente um epitáfio, "A morte do Iraque", em "Current History".
Escreve Rosen: "O Iraque foi assassinado, para nunca mais se levantar. A ocupação americana tem sido mais desastrosa que a dos mongóis, que saquearam Bagdá no século 13", percepção comum dos iraquianos.
"Somente os tolos falam agora em 'soluções'.
Não há solução.
A única esperança é que, talvez, o dano possa ser limitado".
Independiente da catástrofe, o Iraque continua sendo um tema marginal na campanha presidencial.
Isso é natural, dado o espectro falcão-pomba da opinião elitista.
As pombas liberais aderem ao seu raciocínio e atitudes tradicionais, rezando para que os falcões estejam com a razão, que os EUA obtenham uma vitória e imponham "estabilidade", palavra código para subordinação à vontade de Washington.
Os falcões são alentados e as pombas silenciadas com relatórios entusiastas sobre menores baixas após o aumento de tropas.
Em dezembro, o Pentágono difundiu "boas notícias" sobre o Iraque: um estudo mostrava que os iraquianos têm "opiniões divididas", com o que a reconciliação deveria ser possível.
As opiniões eram duas.
Primeiro, que a invasão dos EUA é a causa da violência sectária que deixou o Iraque aos pedaços.
Segundo, que os invasores deveriam se retirar.
Umas poucas semanas depois do relatório do Pentágono, o especialista militar no Iraque do The New York Times, Michael R. Gordon, escreveu uma análise arrazoada sobre as opções referentes ao Iraque que enfrentam os candidatos presidenciais.
Há uma voz que falta no debate: a dos iraquianos.
Ou melhor: ela não é digna de ser mencionada.

E parece que ninguém se importa.
Isso tem sentido na habitual presunção tácita de quase todos os discursos sobre política internacional: somos donos do mundo, o que importa, então, o que outros pensem?
São "não-pessoas", pegando de empréstimo o termo usado pelo historiador britânico Mark Curtis em seu trabalho sobre os crimes imperiais do Reino Unido.
Por rotina, os americanos unem-se aos iraquianos em ser não-pessoas.
Suas preferências também não oferecem opções.
O original encontra-se em IAR Notícias/The New York Times SyndicateLink: http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=34159