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quarta-feira, 29 de julho de 2009

MÁXIMAS DE SABEDORIA

A poesia de Eduardo Galeano

O Direito ao Delírio


Eduardo Galeano
(tradução livre Rodrigo Espinosa Cabral)


Que tal começarmos a exercer O direito de sonhar?
Que tal se delirarmos um pouquinho?
No próximo milênio, o ar estará limpo
de todo veneno
O televisor deixará de ser
o membro mais importante da família
As pessoas trabalharão para viver,
em vez de viver para trabalhar.
Os economistas não chamarão
nível de vida o nível de consumo,
nem chamarão qualidade de vida
a quantidade de coisas.
Ninguém será considerado herói
ou tolo só porque faz aquilo que
acredita ser justo, em vez de fazer
aquilo que mais lhe convém.
A comida não será uma mercadoria,
nem a comunicação um
negócio, porque comida e comunicação
são direitos humanos.
A educação não será um privilégio
apenas de quem possa pagá-la.
A polícia não será a maldição
daqueles que não podem comprá-la.
A justiça e a liberdade, irmãs
siamesas condenadas a viverem separadas,
voltarão a juntar-se, bem unidas
ombro com ombro.
E os desertos do mundo e os desertos
da alma serão reflorestados.


Que eu me torne em todos os momentos, agora e sempre,
um protetor para os desprotegidos,
um guia para os que perderam o rumo,
um navio para os que têm o oceano a cursar,
uma ponte para os que têm rios a atravessar,
um santuário para os que estão em perigo,
uma lâmpada para os que não tem luz,
um refúgio para os que não tem abrigo,
um servidor para todos os necessitados.








A JORNADA E OS PRECONCEITOS

Afastai de vós os preconceitos.
Pois a ninguém é dado julgar os seus irmãos. E o sábio não emite opiniões sobre as coisas que desconhece.
Abençoai as diferenças entre vós, que formam o mundo tal como o conheceis; como o colorido das plantas cria a beleza do jardim.
Sobre todas elas, o Universo derrama o calor do sol e o refrigério da chuva; não há distinções entre os filhos de Sua essência. E, se assim é, nenhum direito vos assiste de julgar-vos superiores àqueles que o Infinito colocou em vossa estrada.
Juntos, formais a caravana. E ao viajante cabe o dever de estender a mão, para aquele que ao seu lado caminha; é repartindo o pão e a água, que juntos chegareis ao fim da jornada.
Pois, enquanto o pranto de um único homem correr sobre a terra, nem o riso de todos os outros será suficiente para alegrar o coração do Universo. E, como não repousa o pai diligente até que o último filho à casa retorne, não descansará o Infinito, até que reunidos estejam todos os Seus filhos.
Buscai, portanto a união. E, para que possais atingi-la, sabei que, como as terras da vossa propriedade, os vossos direitos terminam onde começam os do vizinho.
Respeitai os direitos dos outros; como respeitais as vossas fronteiras. Pois o homem que não respeita os direitos alheios, não pode esperar que sejam os seus respeitados.
E não vos limiteis a defender os vossos próprios direitos; o abuso que hoje vitima o vosso irmão, amanhã poderá bater à vossa porta. Se juntos estiverdes, com mais forças resistireis.
É no conhecimento, que encontrareis a Paz.
Porque com ele viaja a aceitação. E necessitais aceitar as pessoas como verdadeiramente são; só assim vencereis os vossos preconceitos e afastareis a inquietude, que a todos os momentos ronda o vosso verdadeiro Eu.
Juntos, caminhais. E de vós dependerá o tempo da jornada. Buscai, pois, o calor do entendimento; para que em vossos corações não mais exista o gelo da desconfiança.
E possa florir a primavera da compreensão.
Idéias, sentimentos, emoções. Oásis que nos ajudam a atravessar os trechos desérticos da vida...

...na dimensão da luz...
"Eu já fui pedra
nesses caminhos do mundo
fui verdes pastos,
sombra e alimento a tantas bocas
Tempos depois
eu fui um peixe
nadando em muitas águas e
quando o sol sumiu nos montes
amanhecí um pássaro
E só então, depois de muitas eras
Eu fui um índio que conheceu a Natureza até
que hoje ressuscitado eu sou um bicho-homem.
Agora eu sigo procurando
a etapa do Universo
em que essas vidas tantas todas
vão se dar num anjo.
Um anjo de Luz... "
Letra de uma canção minha, chamada ´A Humana Idade´.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

TORTURA, TORTURADOS E TORTURADORES

“Vários detidos morreram sob tortura”

Entrevista com Abdelyabar al-Kubaysi, secretário geral da Aliança Patriótica Iraquiana: IraqSolidari
Al-Basra, 28 de dezembro de 2005

Faça um resumo de seu período de detenção

Estive detido durante 16 meses no cárcere de Camp Cropper, situado no Aeroporto Internacional de Bagdá, onde também se encontra a maior base ianque do país. No início de minha detenção, os interrogadores ianques me mostraram pastas que diziam conter informações sobre mim desde 1960. Meu interrogatório durou seis meses e era, em sua quase totalidade, de caráter político. Inclusive me perguntaram sobre personalidades políticas árabes e estrangeiras. Na última parte do interrogatório me disseram que não acreditavam em nada do que lhes dizia. Minha resposta foi: "Isto é problema de vocês."
Nos primeiros seis meses de minha detenção me introduziram em uma cela construída em um habitáculo de madeira um pouco maior. Mas passei os primeiros dias em uma caixa (de madeira) onde cabia apenas meu corpo.
Depois desses 6 primeiros meses me transferiram para onde estavam os presos políticos.
Durante meu tempo de detenção eu pude falar com todos eles, com exceção de Tareq Aziz e Taha Yasín Ramadán 1, que via de longe, mas com quem nunca coincidia haver ocasião em que pudéssemos nos falar. Entre os com quem conversei muito estão Qays al-Aazami, Humam Abdel Kader, Humam Abdel Jalek, Abdel Ata-wab Hwich, Ahmed Mortada, Hus-sam Mohamed Amin, Sutam Alham-mud e Abd Hammud, além de vários oficiais dos serviços secretos iraqui-anos. Havia um total de 103 detidos neste cárcere.
Antes de nos colocar em liberdade nos perguntaram se tínhamos um destino de preferência. Eu e ou-tros cinco escolhemos Bagdá, ou- tros cinco Tikrit; outros escolheram Aman, inclusive as senhoras Huda Saleh Ammach e Rihab Taha, porque temiam ser assassinadas pelas milícias de Badr2.
Na prisão (do aeroporto de Bag-dá) há uns 65 detidos (dirigentes do governo deposto e do partido Baath) a espera de julgamento. Mas é provável que se liberte alguns deles, como Mohamed Mahdi Saleh (que foi ministro de Comércio), Abdel Atawab Hwich e Saad Abdel Majid al-Faysal (ex-funcionário do ministério do Exterior), Fadel Mahmud Gharib e Jalil Sarhan (membros da direção do Partido Baath), e Hamed Challah (comandante das Forças Aéreas). São um total de 12 os detidos que ainda não compareceram perante nenhum juiz, mas é possível que acabarão por fazê-lo no futuro.
O que caracteriza essencialmente a este centro (de detenção) é que está totalmente isolado do resto do mundo. O preso não vê mais que aos soldados ianques - ainda que posteriormente me permitiram contactar com minha família durante dez minutos a cada 40 dias e o mesmo fizeram com os demais detidos, que podiam ver sua família durante 20 minutos a cada quatro meses. Estas medidas afetavam todo mundo.



Que tratamento recebeu dos ocupantes durante os dias anteriores a sua libertação?



Antes de minha libertação os ianques pediram que eu assinasse uma declaração contra a violência e comprometendo-me a não atuar contra o governo iraquiano e as forças multinacionais de ocupação, estar contra qualquer atividade contra eles e comprometer-me de tudo isso ante as forças de segurança iraquianas, além de deixar de expressar-me politicamente nos meios de comunicação durante um ano e meio.
Perguntei-lhes se pretendiam que acabasse trabalhando como confidente e me neguei a assinar aquele documento. Também disse a um general ianque que se havia passado tanto tempo preso é porque havia rechaçado o que estavam me propondo agora, e perguntei se a estas alturas pretendiam me converter em seu espião. E acrescentei: imagina você que eu possa calar-me sobre o que se está passando em meu país? Abandonei então a sala de interrogatório e me dirigi a meu módulo. O general me seguiu e disse: "Bem, assine o que quiser e rabisque o que quiser".
Entre os pontos que continha aquele documento havia um que se referia ao "apoio a uma reconciliação nacional num Iraque unido", e outro ponto que afirmava haver "sido informado de que o partido Baath foi proscrito por lei" 3. Outro ponto fazia referência a minha "disposição de comparecer ante à justiça, se assim fosse preciso" - ainda que durante todo o tempo que durou minha detenção sempre tenha enviado cartas ao Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) solicitando ou minha libertação ou meu julgamento diante de um juiz iraquiano - assinei dando meu consentimento a estes pontos e rasurei os demais.
Ao sair da prisão me entregaram um certificado de ter sido detido, no qual consta um telefone pessoal para o caso de os soldados decidirem me prender novamente.



Interrogatórios



Que tipo de discussões tinhas com os interrogadores?



Os interrogatórios e seus procedimentos eram fatigantes. Os interrogadores eram mudados constantemente e as sessões duravam mais de 20 horas, tempo que sempre passávamos com as mãos e os pés amarrados e os olhos vendados. Os interrogadores estavam formados por grupos de quatro ianques da CIA ou de outras instâncias e iam mudando constantemente.
Nos pediam informações sobre a resistência ou sobre as mesquitas de Faluja e outras questões concretas. Logo as discussões passaram a ser em torno da ocupação em si e do dinheiro roubado do Iraque (lhes disse em uma ocasião que eram uns ladrões e o interrogador me contestou que isso não era verdade; seguidamente lhe joguei na cara que ele, seu pai e seu presidente eram todos ladrões)
Para justificar minha detenção os interrogadores elaboraram umas acusações que não chegavam a ser crimes, porque sabiam que não era verdade, não porque eu me negasse a confirmá-las, pois consistia em que eu me dedicava a mobilizar as forças árabes e européias contra a ocupação, ou que eu havia feito reuniões com Saddan Husseim para organizar a ação da resistência para depois da ocupação4, ou que eu era coordenador político de islamitas, sadristas5 e baathistas, além de ser um teórico político da resistência.
Um dos interrogadores me apresentou alguns escritos meus como prova de que eu era um teórico político da resistência, textos nos quais eu havia abordado alguns pontos para criar as condições da expulsão dos ocupantes. Eu não neguei que alento a resistência até a expulsão do último soldado ianque e iraniano de meu país, mas, por outro lado, disse desconhecer quem faça parte da resistência.
Assim, havia escrito em algum artigo meu que eram necessárias quatro condições para poder acabar com a ocupação:
1 ampliar a geografia da atividade armada da resistência e fazê-la crescer para que se converta em uma resistência nacional sem denominações confessionais;
2 fomentar as ações qualitativas para infligir maiores danos aos ianques, tanto a nível humano como material;
3 que o Iraque não está isolado de seu entorno, nem pela história nem pela geopolítica (regional) e que, portanto tudo o que acontece no Iraque faria efeito em toda a zona, o que levaria os governos leais ao USA no Oriente Médio a formular (à administração Bush) o risco que suporia continuar ocupando o Iraque e as consequências do fortalecimento da resistência iraquiana, de tal maneira que o USA se dará conta de que a entidade sionista na Palestina , que ele tem protegido, fazendo a guerra por ele (Israel), estará em perigo; e
4 que o USA perdeu sua credibilidade e isto levará a sociedade estadunidense a rechaçar a ocupação e a guerra no Iraque.
Logo me perguntou: "Por que não luta contra a ocupação iraniana?", e lhe respondi que a ocupação iraniana se acabará um minuto antes de sua retirada do Iraque, porque é uma ocupação velhaca que chegou depois da ianque e deixará de existir no momento em que o exército ianque desmoronar e fugir do Iraque. É uma ocupação coberta pelo capacete do soldado ianque e sustentada nos serviços secretos iranianos e em organizações e instituições controladas por esses serviços, que recebem dezenas de milhões de dólares. E ele me respondeu "Então, é possível que estale uma guerra civil?". Eu lhe disse: "retirem-se e deixe-nos matarmos entre nós. No Iraque nunca sentimos que haviam chiitas e sunitas e só começamos a escutá-lo quando vocês chegaram e trouxeram o governo iraniano de Al-Jaafari e os partidos iranianos, mas mesmo assim tudo isso terminará quando vocês se retirarem de meu país. Vocês são os inimigos agora e tua expulsão é a única saída que temos e será por meio da resistência". Logo ele me insultou e eu lhe insultei e lhe disse que não podia fazer nada comigo a não ser que me desse um tiro na cabeça.
Depois veio outro interrogador da CIA e me disse que o Iraque estava em perigo, que o USA está empantanado e repeitavam muito a análise que fazíamos da situação. Me prometeu inclusive fazê-la chegar a Washington.



Torturas



O que ocorre neste centro de detenção, sobretudo com relação à tortura?



Eu pessoalmente não vi ninguém que tenha sido torturado, salvo os casos de quatro pessoas: Taha Yasín Ramadán, vice-presidente da República, porque vi seu corpo ensanguentado e o mesmo tentando curar-se com água e sal; Jamis Sarhan, membro da direção do Partido Baath e morador de Faluja; o Dr. Hazem Achaij Arrawi, um cientista do programa biológico; e Mohamad A-Saghir, oficial dos serviços secretos. E não estou me referindo à prática habitual de vendar os olhos e amarrar as mãos nas costas dos detidos, para logo juntá-las com os pés durante dias, metidos em cubículo de madeira dentro de outro buraco pequeno e escuro. Não, não me refiro a essas práticas, que sofremos durante todos os dias do interrogatório e que eu pessoalmente também sofri.
É preciso destacar também que nem para comer nos desamarravam as mãos, nem nos tiravam as vendas dos olhos. Apenas em lugar de amarrar nossas mãos nas costas o faziam para a frente e aí era preciso comer como um cego. A comida durava dez minutos e depois as mãos voltavam a ser amarradas atrás.



Conheceu alguém que tenha sucumbido à tortura?



Sim, várias pessoas morreram sob tortura, entre eles Adel Al-Duri, que tinha mais de 60 anos e era membro da direção do partido Baath; Hamza Zubaidi, ex-primeiro-ministro, que tinha mais de 70 anos de idade; e Waddah Achaij, um oficial de serviços secretos, que tinha uns 58.



Havia quantas pessoas detidas no cárcere?



Há 103 detidos, além de membros da resistência que foram isolados em um pavilhão à parte, como eu durante os primeiros seis meses. [Este grupo] chegou a estar composto por uns 17 detidos e 9 detidas.
Quando fui libertado, eles seguiam isolados e não sabemos nada do que se lhes inflige.



Aparte a tortura, havia também tentativas de subornar os detidos? Recebeu alguma oferta nesse sentido?



Desde o começo, me ofereceram dinheiro e postos no [novo] governo. E mais, me disseram: "critique-nos, mas dê sua boa vista à participação no processo político e nas eleições [de 15 de dezembro] de 2005". Rechacei isso e assim me disseram que não ia ser posto em liberdade até que as eleições fossem celebradas, e assim foi.
Disse-lhes também que eu estou a favor da resistência e que se tivesse 30 anos lutaria contra eles. Um de seus generais me respondeu: "Forme dois batalhões e lute contra nós, mas não escreva contra nós". Aí, lhes disse: " Não sou um militar e tenho mais de 60 anos, sendo que a única coisa que posso fazer é escrever. É o que seguirei fazendo".



O que mais incomoda os detidos?



A alimentação. Os detidos sofrem de uma fome inimaginável. Era-nos servida uma colher de arroz e entre 20 ou 30 grãos de milho por detido, além de um pedaço de carne. E não estou exagerando. Quando mudavam de menú, nos davam três colheradas de macarrão. Essa é uma das preocupações dos detidos, que fica refletida em suas cartas dirigidas ao CICV.
_____________________________________
1. Respectivamente, vice-primeiro-ministro e vice-presidente do Iraque no momento da invasão.
2. As milícias de Badr são corpos paramilitares criados e fomentados no Irã. São o braço armado da chamada "revolução islâmica" e estão em semi-legalidade no Iraque.
3. Al-Kubaysi é dissidente do partido Baath há 25 anos.
4. Como secretário geral da Aliança Patriótica Iraquiana, Al-Kubaysi instou o governo de Saddam Hussein a abrir um processo de diálogo político com a oposição no exterior, não comprometida com os planos de invasão do Iraque que, depois de 12 anos de sanções, era já iminente. Al-Kubaysi voltou ao Iraque com este fim antes do início da invasão. Poucas semanas antes do início da guerra visitou o Estado espanhol.
5. Partidários de Al-Sadr, clérigo chiita, finalmente vinculado nas eleições de dezembro à lista confessional chiita hegemônica no governo anterior de Al-Jaafari.












A confissão do torturador
Eduardo Galeano
Porto Alegre 2003



Como uma compensação, o sistema de poder confessa sua verdadeira identidade através das torturas que inflige. Nas câmaras de tormento, os que mandam arrancam sua máscara.
Assim ocorre no Iraque, para citar um exemplo. Para apoderar-se do Iraque apesar dos iraquianos e contra os iraquianos, as tropas de ocupação atuam com realismo: pregam a democracia e a liberdade e praticam a tortura e o crime. Quem quer ao fim, quer aos meios. Ou por algum acaso alguém pode crer que existe outra maneira de roubar um país?
O resto é puro teatro: as cerimônias, as declarações, os discursos, as promessas e a transferência da soberania, que passa dos Estados Unidos aos Estados Unidos.
Ocorre que o poder não diz o que diz. Por exemplo: quando diz "terrorismo no Iraque", em muitos casos deveria dizer: "resistência contra a ocupação estrangeira”.
***
Quando se publicaram as fotos e estourou o escândalo, as cúpulas do poder político e militar cantaram em coro os salmos de sua auto-absolvição:
- "São casos isolados" - "São casos patológicos" - "São umas tantas maçãs podres" - "São perversos que desonram o uniforme".
Como de costume, o assassino pôs a culpa na faca.
Mas esses soldados ou policiais que enlouquecem o prisioneiro dando-lhe descargas de eletricidade, ou submergindo-lhe a cabeça em merda, ou partindo-lhe o cu, não são mais que instrumentos: funcionários que ganham o soldo cumprindo sua tarefa em horário de trabalho. Alguns trabalham com falta de vontade e outros com fervor, como essas entusiasmadas senhoritas que se fotografaram enquanto humilhavam seus torturados iraquianos e os exibiam como troféus de caça. Mas todos, os apáticos e os fervorosos, são burocratas da dor que atuam a serviço de uma gigantesca máquina de picar carne humana. Loucos? Perversos? Pode ser, mas o pretexto patológico não absolve o poder imperial que necessita da tortura para assegurar e ampliar seus domínios, porque esse poder está muito mais louco e é muito mais perverso que os instrumentos que utiliza. E nada tem de anormal que um poder atrozmente injusto se utilize de métodos atrozes para perpetuar-se.
***
Nada tem de anormal, tampouco, que esses métodos atrozes não se chamem por seu nome.
A Europa sabe que onde manda capitão não manda marinheiro. A declaração da União Européia contra as torturas no Iraque não mencionou a palavra tortura. Essa desagradável expressão foi substituída pela palavra “abusos”. Bush e Blair falaram de “erros”. Os jornalistas da CNN e de outros meios de massa não puderam utilizar a palavra proibida.
Anos antes, para que os prisioneiros palestinos fossem legalmente triturados, a Suprema Corte de Israel havia autorizado "as pressões físicas moderadas". Os cursos de torturas que há muito tempo recebem os oficiais latino-americanos na Escola das Américas denominam-se "técnicas de interrogatório". No Uruguai, que foi campeão mundial na matéria durante os anos de ditadura militar, as torturas se chamavam, e ainda se chamam, "processos ilegais".
Segundo a Anistia Internacional, a venda de aparatos de tortura no mundo é um brilhante negócio para umas tantas empresas privadas dos Estados Unidos, Alemanha, Taiwan, França e outros países, mas esses produtos industriais são "meios de autodefesa" ou "material para o controle da delinqüência".
***
Por sua vez, mencionaram sim a palavra tortura, com todas as suas letras, os pesquisadores que interrogaram a população dos Estados Unidos no ano de 2001, pouco depois da derrubada das torres de Nova Iorque. E quase a metade da população, 45 por cento, respondeu que a tortura não parecia má “se aplicada contra os terroristas que se negam a dizer o que sabem”.
Seis anos antes, no entanto, a ninguém havia ocorrido torturar o terrorista Timothy McVeigh quando ele se negou a dar o nome de seus cúmplices. A bomba que McVeigh pôs em Oklahoma matou 168 pessoas, incluindo muitas mulheres e crianças, mas era branco, não era muçulmano e havia sido condecorado na primeira guerra do Iraque, onde aprendeu a cozinhar purê de gente.
***
Contra o terrorismo, tudo vale. Isto tem proclamado o presidente Bush, em mil ocasiões; e o repetido o eco Blair. Ambos continuam brindando pelo êxito de suas cruzadas. Seguem dizendo: “O mundo é agora um lugar mais seguro”, enquanto o mundo estoura e a cada dia a violência gera mais violência e mais e mais.
***
Guantánamo é o símbolo do mundo que nos espera. Seiscentos suspeitos, alguns menores de idade, definham nesse campo de concentração. Não têm nenhum direito. Nenhuma lei os ampara. Não têm advogados, nem processos, nem condenações. Ninguém sabe nada deles, eles não sabem nada de ninguém. Sobrevivem em uma base naval que os Estados Unidos usurparam de Cuba. Supõe-se que sejam terroristas. Se são ou não são é apenas um detalhe que não tem a menor importância.
Ali foi onde o general Ricardo Sánchez ensaiou trinta e duas formas de tortura, chamadas "táticas de pressão e intimidação", que logo implantou nas prisões do Iraque.
***
Desde a derrubada das torres de Nova Iorque, a tortura vem recebendo numerosos elogios. Foi desencadeado um bombardeio de opiniões jurídicas e jornalísticas aberta ou veladamente favoráveis a este método institucional de violência, ainda que nunca, ou quase nunca, o chamem como se chama. Estas apologias da infâmia, que provêm do poder, ou de fontes próximas, sustentam que a tortura é legítima para defender a população desamparada ante as ameaças que espreitam, porque existem meios de luta de moralidade duvidosa que resultam inevitáveis contra os inescrupulosos assassinos que praticam o terrorismo e o promovem e que jamais dizem a verdade.
Mas, se foi assim, quem havia de torturar? Quem são os homens que mais têm mentido neste século XXI? Quem são os que mais inocentes têm matado, sem nenhum escrúpulo, em suas guerras terroristas do Afeganistão e Iraque? Quem são os que mais têm contribuído à multiplicação do terrorismo no mundo?
***
Agora abundam os surpreendidos e os indignados, mas a tortura não foi utilizada por erro nem por casualidade contra a população iraquiana. As tropas de ocupação a empregaram como era costume, por ordens muito superiores, sabendo do que faziam e para quê o faziam.
Para quê? Não há nenhuma prova de que a tortura tenha servido para evitar um só atentado terrorista. No caso do Iraque, nem sequer tem sido útil para capturar algum dos foragidos importantes. E mais, Saddam Hussein não caiu graças à tortura, e sim graças ao dinheiro que comprou um delator.
A tortura arranca informações de escassa utilidade e confissões de improvável veracidade. E, no entanto, é eficaz. Por isso foi aplicada e se continua aplicando: o que é eficaz é bom, segundo os valores que regem o mundo. A tortura é eficaz para castigar heresias e humilhar dignidades, e sobretudo é eficaz para semear o medo. Bem o sabiam os monges da Santa Inquisição e bem o sabem os chefes guerreiros das aventuras imperiais de nosso tempo: o poder não emprega a tortura para proteger a população, e sim para aterrorizá-la.
Será tão eficaz quanto o poder crê que seja?<>


Tradução: Tiago Soares


22/07/2004





Iraque
Saddam Hussein acusa EUA de mentir sobre tortura
Agência ANSA
Quinta-feira, 22/12/2005 - 12:17


Bagdá - O ex-presidente iraquiano Saddam Hussein acusou hoje os Estados Unidos de "mentir" quando afirma que não foi torturado nas mãos dos carcereiros, assim como "mentiram sobre as armas químicas no Iraque".




A informação foi dada esta manhã pelo Tribunal Especial de Bagdá, onde foi retomado o processo contra ele pela matança de 148 xiitas na cidade de Dujail em 1982.




"Na Casa Branca são uns mentirosos", disse Saddam, que entrou no cercado destinados aos réus com uma cópia do Alcorão nas mãos.




"Disseram que o Iraque tinha armas químicas. Mentiram de novo agora, fingindo que não apanhei", expressou o ex-presidente, que está sendo julgado junto a sete de seus ex-funcionários de governo. Na audiência de ontem, quarta-feira, a sexta desde o início do processo em 19 de outubro, Saddam assegurou ter sido "torturado e apanhado" por seus carcereiros norte-americanos, e que ainda tem "marcas em todo o corpo".
Horas mais tarde o porta-voz da Casa Branca Scott McClellan expressou que as afirmações do ex-presidente "eram a coisa mais absurda" que já haviam escutado.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

HOMENAGEM AO POVO PALESTINO



Poesia Palestina de Combate

Talvez perca — se desejares — minha subsistência
Talvez venda minhas roupas e meu colchão
Talvez trabalhe na pedreira... como carregador... ou varredor
Mas não me venderei,
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Talvez me despojes da última polegada da minha terra
Talvez aprisiones minha juventude
Talvez me roubes a herança de meus antepassados
Talvez queimes meus poemas e meus livros
Talvez apagues todas as luzes de minha noite
Talvez me prives da ternura de minha mãe
Talvez falsifiques minha história
Talvez ponhas máscaras para enganar meus amigos
Talvez levantes muralhas e muralhas ao meu redor
Talvez me crucifiques um dia diante de espetáculos indignos
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Ó inimigo do sol
O porto transborda de beleza... e de signos
Botes e alegrias
Clamores e manifestações
Os cantos patrióticos arrebentam as gargantas
E no horizonte... há velas
Que desafiam o vento... a tempestade e franqueiam os obstáculos
É o regresso de Ulisses
Do mar das privações
O regresso do sol... de meu povo exilado
E para seus olhos
Ó inimigo do sol
Juro que não me venderei
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Resistirei
Resistirei
Samih Al-Qassin



Nota do blog: Observe a degradação e a mutilação da Palestina (reduzida a enclaves - a Faixa de Gaza é a maior prisão a céu aberto do mundo), leia o texto abaixo e saiba porque o terrorismo de estado israelense não tem nenhuma intenção de reconhecer os direitos nacionais palestinos.
Israel não tem nenhuma intenção de admitir um estado palestino: Se o Hamas não existisse, por Jennifer Loewenstein
Deixemos uma coisa perfeitamente clara. Se a degradação e a mutilação por atacado da Faixa de Gaza for continuar; se a vontade de Israel é uma com a dos Estados Unidos; se a União Européia, a Rússia, as Nações Unidas e todas as organizações e agências legais internacionais espalhadas pelo globo vão continuar sentadas como manequins ocos sem fazer nada a não ser os repetidos “chamados” por um “cessar-fogo” de “ambos os lados”; se os covardes, obsequiosos e supinos Estados Árabes vão continuar de braços cruzados vendo seus irmãos serem trucidados de hora em hora enquanto a Super-Potência valentona do mundo olha-os ameaçadoramente de Washington, no caso de que digam qualquer coisinha que a desgoste; então vamos pelo menos dizer a verdade sobre por que está tendo lugar este inferno na terra.

O terror de estado disparado neste momento dos céus e do chão contra a Faixa de Gaza não tem nada a ver com o Hamas.

Não tem nada a ver com o “Terror”.

Não tem nada a ver com a “segurança” a longo prazo do Estado Judeu ou com o Hezbolá, a Síria ou o Irã, exceto na medida em que agrava as condições que levaram até a crise de hoje. Não tem nada a ver com alguma conjurada “guerra” -- um eufemismo cínico e gasto que não representa mais que a escravização por atacado de qualquer nação que ouse reclamar seus direitos soberanos; que ouse afirmar que seus recursos são seus; que não queira uma das obscenas bases militares do Império assentada em suas queridas terras.

Esta crise não tem nada a ver com liberdade, democracia, justiça ou paz.

Não é sobre Mahmoud Zahhar ou Khalid Mash'al ou Ismail Haniyeh.

Não é sobre Hassan Nasrallah ou Mahmoud Ahmadinejad.

Eles são todos peças circunstanciais que ganharam um papel na tempestade atual só agora, depois de que se permitiu por 61 anos que a situação se desenvolvesse até a catástrofe que é hoje.

O fator islamista coloriu e continuará a colorir a atmosfera da crise; ele alistou líderes atuais e mobilizou amplos setores da população do mundo.

Os símbolos fundamentais hoje são islâmicos – as mesquitas, o Alcorão, as referências ao profeta Maomé ou à Jihad. Mas esses símbolos poderiam desaparecer e o impasse continuaria.Houve uma época em que o Fatah e a FPLP eram a bola da vez, quando poucos Palestinos queriam ter qualquer coisa a ver com políticas ou medidas islamistas. Esta política não tem nada a ver com foguetes primitivos sendo lançados do outro lado da fronteira ou com túneis de contrabando ou com o mercado negro de armas, assim como o Fatah de Arafat tinha pouco a ver com as pedras e os atentados suicidas a bomba. As associações são contingentes; criações de um dado ambiente político. Elas são o resultado de algo completamente diferente do que os políticos mentirosos e seus analistas estão lhe dizendo. Elas se tornaram parte da paisagem dos acontecimentos humanos no Oriente Médio de hoje; mas incidências tão letais, ou tão recalcitrantes, mortais, enraivecidas ou incorrigíveis poderiam muito bem ter estado em seus lugares.Descasque os clichês e o blá-blá-blá estridente e vazio da mídia servil e de seu patético corpo de servidores estatais voluntários no mundo ocidental e o que você encontrará é o desejo nu de hegemonia, de poder sobre os fracos e de domínio sobre a riqueza do mundo. Pior ainda, você encontrará o egocentrismo, o ódio e a indiferença, o racismo e a intimidação, o egoísmo e o hedonismo que tentamos tanto mascarar com nosso jargão sofisticado, nossas teorias e modelos acadêmicos refinados, que na verdade ajudam a guiar nossos desejos mais feios e baixos. A insensibilidade com que nos rendemos a eles já é endêmica à nossa cultura; nela floresce como moscas sobre um cadáver.Descasque os atuais símbolos e linguagem das vítimas dos nossos caprichos egoístas e devastadores e você encontrará os gritos desafetados, simples e cheios de paixão dos pisoteados; dos “condenados da terra” implorando para que você cesse sua agressão fria contra suas crianças e seus lares; suas famílias e seus vilarejos; implorando que os deixe em paz para que tenham seu peixe e seu pão, suas laranjas, suas olivas e seu tomilho; pedindo primeiro educadamente e depois com crescente descrença no porquê de você não poder deixá-los viver sem serem incomodados nas terras de seus ancestrais, sem serem explorados, livres do medo de serem expulsos, violados ou devastados; livres dos carimbos e dos bloqueios de estrada e dos postos policiais de controle e cruzamentos; dos monstruosos muros de concreto, torres de guarda, bunkers de concreto e arame farpado; dos tanques, das prisões, da tortura e da morte.

Por que é impossível a vida sem essas políticas e instrumentos do inferno?

A resposta é: porque Israel não tem qualquer intenção de permitir um estado palestino viável e soberano ao lado de suas fronteiras.

Não tinha qualquer intenção de permiti-lo em 1948, quando arrancou 24% mais terra do que havia sido legal, ainda que injustamente, alocado pela Resolução 181 das Nações Unidas.

Não tinha qualquer intenção de permiti-lo ao longo dos massacres e complôs dos anos 1950. Não tinha qualquer intenção de permitir dois estados quando conquistou os 22% que restavam da Palestina histórica em 1967 e reinterpretou a Resolução 248 do Conselho de Segurança da ONU a seu bel prazer, apesar do esmagador consenso internacional que estabelecia que Israel receberia completo reconhecimento internacional dentro de fronteiras reconhecidas e seguras se recuasse das terras que havia recentemente ocupado.

Não tinha qualquer intenção de reconhecer direitos nacionais palestinos nas Nações Unidas em 1974, quando – sozinho com os Estados Unidos – votou contra uma solução biestatal.

Não tinha qualquer intenção de permitir um acordo de paz completo quando o Egito estava pronto para realizar, mas só recebeu, e obedientemente aceitou, uma paz separada que excluía os direitos dos palestinos e dos outros povos da região. Não tinha nenhuma intenção de trabalhar na direção de uma solução biestatal justa em 1978 ou em 1982, quando invadiu, bombardeou, esmigalhou e demoliu Beirute para que pudesse anexar a Cisjordânia sem ser incomodado. Não tinha qualquer intenção de admitir um estado palestino em 1987, quando a primeira Intifada se espalhou pela Palestina Ocupada, na Diáspora e nos espíritos dos despossuídos do mundo, ou quando Israel deliberadamente auxiliou o nascente movimento Hamas, como forma de implodir a força das facções mais seculares-nacionalistas.Israel não tinha qualquer intenção de admitir um estado palestino em Madrid ou em Oslo, quando a OLP foi superada pela trêmula e titubeante Autoridade Palestina, muitos de cujos chapas perceberam a riqueza e o prestígio que ela lhes dava, às custas dos seus. Enquanto Israel alardeava nos microfones e satélites do mundo o seu desejo de paz e de uma solução biestatal, ele mais que duplicava os assentamentos colonizadores judeus, ilegais, nas terras da Cisjordânia e em volta de Jerusalém Oriental, anexando-as na medida em que construía e continua a construir uma superestrutura de estradas e autopistas sobre as cidades e vilarejos sobreviventes, picotados da Palestina. Anexou o Vale do Jordão, a fronteira internacional da Jordânia, expulsando quaisquer dos “nativos” que habitassem a terra. Fala com uma língua de víbora sobre os múltiplos amputados da Palestina, cujas cabeças serão logo arrancadas do corpo em nome da justiça, da paz e da segurança.Através das demolições de casas, dos ataques à sociedade civil que tentavam lançar a cultura e a história palestinas num abismo de esquecimento; através da indizível destruição dos cercos aos campos de refugiados e dos bombardeios à infraestrutura na Segunda Intifada, através dos assassinatos e das execuções sumárias, pela grandiosa farsa do desengajamento até a nulificação das eleições livres, democráticas e justas da Palestina, Israel já nos fez saber qual é a sua visão, uma e outra vez, na linguagem mais forte possível, a línguagem do poder militar, das ameaças, das intimidações, do acosso, da difamação e da degradação.Israel, com o apoio aprovador e incondicional dos Estados Unidos, já deixou dramaticamente claro ao mundo todo, várias vezes, repetindo em ação atrás de ação que não aceitará um estado palestino viável ao lado de suas fronteiras. O que mais é preciso para que escutemos? O que será necessário para terminar com o silêncio criminoso da “comunidade internacional”? O que será preciso para ver mais além das mentiras e da doutrinação acerca do que tem lugar diante de nós, dia após dia, claramente, no raio de visão dos olhos do mundo? Quanto mais horrorosas as ações no terreno, mais insistentes são as palavras de paz. Ouvir e assistir sem escutar nem ver permite que a indiferença, a ignorância e a cumplicidade continuem e aprofundem, a cada túmulo, a nossa vergonha coletiva.A destruição de Gaza não tem nada a ver com o Hamas.

Israel não aceitará qualquer autoridade nos territórios palestinos que ele, em última instância, não controle. Qualquer indivíduo, líder, facção ou movimento que não aceda às exigências de Israel ou que busque genuína soberania e igualdade de todas as nações da região; qualquer governo ou movimento popular que exija a aplicabilidade da lei humanitária internacional e a declaração universal dos direitos humanos para seu próprio povo será inaceitável para o Estado Judeu. Aqueles que sonham com um estado devem ser forçados a perguntarem-se: o que Israel fará com uma população de 4 milhões de palestinos dentro de suas fronteiras, quando comete crimes diários, se não a cada hora, contra a humanidade coletiva deles enquanto eles vivem ao lado de suas fronteiras? O que fará mudar de repente a razão de ser, o autoproclamado objetivo e razão de existência de Israel se os territórios palestinos forem anexados a ele totalmente?O sangue de vida do Movimento Nacional Palestino jorra hoje pelas ruas de Gaza. Cada gota que cai rega a terra da vingança, do ressentimento e do ódio não só na Palestina, mas em todo o Oriente Médio e em boa parte do mundo. Nós temos uma escolha sobre se isso deverá continuar ou não. Agora é a hora de escolher.
Jennifer Loewenstein é Diretora Associada do Centro de Estudos do Oriente Médio de uma das principais universidades públicas norte-americanas, a de Wisconsin em Madison. Ela trabalhou durante meses, em 2002, no Centro Al Mezan de Direitos Humanos, em Gaza. Retornou a Gaza várias vezes desde então. Original, em inglês, aqui. Tradução ao português de Idelber Avelar. Ilustrações, daqui.

CONFISSÃO DE UM TERRORISTA
Ocuparam minha pátria
Expulsaram meu povo
Anularam minha identidade
E me chamaram de terrorista
Confiscaram minha propriedade
Arrancaram meu pomar
Demoliram minha casa
E me chamaram de terrorista
Legislaram leis fascistas
Praticaram odiado apartheid
Destruíram, dividiram, humilharam
E me chamaram de terrorista
Assassinaram minhas alegrias,
Seqüestraram minhas esperanças,
Algemaram meus sonhos,
Quando recusei todas as barbáries
Eles... mataram um terrorista!
Mahmoud Darwish
Para justificar-se, o terrorismo de estado fabrica terroristas: semeia ódio e colhe pretextos. Tudo indica que esta carnificina de Gaza, que segundo seus autores quer acabar com os terroristas, acabará por multiplicá-los.
Eduardo Galeano
Poesia da Resistência Palestina
Por Intifada Viva
A poesia palestina representa, um brado de combate e esperança para os palestinos que vivem sob a ocupação de Israel ou no exílio.
A poesia palestina representa, um brado de combate e esperança para os palestinos que vivem sob a ocupação de Israel ou no exílio. Apesar da forte repressão à arte popular
A "democracia israelense" não suporta que os palestinos cantem, disse uma vez o poeta Tawfic Zayyad o poema é, de longe, o mais popular gênero da literatura palestina.
Isto pode ser em parte atribuído à forte tradição oral da sua cultura.
Houve, desde o início, uma vontade de simplicidade na poesia de resistência.
Os artifícios de linguagem em favor da estética foram postos de lado.
O poeta Mahmud Darwish expressou claramente isso num de seus primeiros versos:
Se os mais humildes não nos compreendem será melhor jogar fora os poemas e ficarmos calados.
O poeta diz: se meus versos são bons para meus amigos e enfurecem os meus inimigos então é que sou mesmo poeta e devo continuar cantando.
Fontes: Poesia Palestina da Resistência , edição OLP/Brasil, 1986
COM OS DENTES
Tawfiq Zayyad
Com os dentes
Defenderei cada polegada da minha pátria
Com os dentes
E não quero nada em troca dela
Mesmo que me deixem pendurado
Nas minhas veias
Aqui permaneço
Escravo do meu amor...
à cerca da minha casa Ao orvalho...e às géis flores do campo
Aqui continuo
E não poderão derrubar-me
Todas as minhas dores
Aqui permaneço
Com vocês
No meu coração
E com os dentes
Defenderei cada polegada da terra da pátria
Com os dentes

sábado, 13 de setembro de 2008

OS EXTRATERRESTES NA AMÉRICA

Este mundo é um mistério
por Eduardo Galeano


Um grupo de extraterrestres visitou recentemente o nosso planeta. Eles queriam conhecer-nos, por pura curiosidade ou quem sabe com ocultas intenções. Os extraterrestres começaram onde tinham que começar. Iniciaram sua exploração estudando o país que é o número um em tudo, número um até nas linhas telefónicas internacionais: o poder obedecido, o paraíso invejado, o modelo que o mundo inteiro imita. Começaram por aí, tentando entender o manda-mais para depois entender todos os demais. Chegaram em tempo de eleições. Os cidadãos acabavam de votar e o prolongado acontecimento havia mantido todo o mundo em suspenso, como se se houvesse eleito o presidente do planeta. A delegação extraterrestre foi recebida pelo presidente cessante. A entrevista foi no Salão Oval da Casa Branca, agora reservado exclusivamente aos visitantes do espaço sideral para evitar escândalos. O homem que estava a concluir o seu mandato respondeu, sorrindo, às perguntas. Os extraterrestres queriam saber se no país vigorava um sistema de partido único, porque eles só haviam ouvido dois candidatos na televisão, e ambos diziam o mesmo. Mas tinham, também outras inquietações:
Por que demoraram mais de um mês para contar os votos?
Aceitariam os senhores a nossa ajuda para superar este atraso tecnológico?
Por que sempre vota apenas a metade da população adulta?
Por que a outra metade nunca se dá a esse trabalho?
Por que ganha o que chega em segundo lugar?
Por que perde o candidato que tem 328 696 votos de vantagem?
Não é a democracia o governo da maioria?
E outro enigma os preocupava:
Por que os outros países aceitam que este país os examine quanto à democracia, lhes dite normas e lhes fiscalize as eleições?
Será porque este país os castiga quando não se portam como devem?
As respostas deixaram-nos ainda mais perplexos. Mas continuaram a perguntar.
Aos geógrafos: Por que se chama América este país que é um dentre muitos do continente americano?
Aos dirigentes desportivos: Por que se chama Campeonato Mundial ("World Series") o torneio nacional de beisebol?
Aos chefes militares: Por que o Ministério da Guerra se chama Secretaria da Defesa, num país que nunca foi bombardeado nem invadido por ninguém?
Aos sociólogos: Por que uma sociedade tão livre tem a maior quantidade de presos no mundo?
Aos psicólogos: "Por que uma sociedade tão sadia ingere a metade dos psicofármacos que o planeta fabrica?
Aos dietistas: "Por que tem a maior quantidade de obesos este país que dita o menu dos demais países?
Se os extraterrestres fossem simples terrestres, esta absurda bateria de perguntas teria acabado mal. No melhor dos casos, teriam batido com a porta nas suas caras. Toda tolerância tem limites. Mas eles continuaram a bisbilhotar, sem qualquer suspeita de impertinência, má educação ou azedume.
E perguntaram aos estrategistas da política externa: Se os senhores estão ameaçados por inimigos terroristas, como o Iraque, o Irã e a Líbia, porque votaram junto com o Iraque, o Irã e a Líbia contra a criação do Tribunal Penal Internacional, criado para castigar o terrorismo?
E também quiseram saber: Se os senhores têm aqui, muito perto, uma ilha onde estão à vista os horrores do inferno comunista, por que não organizam excursões ao invés de proibir as viagens?
E aos que firmaram o tratado de livre comércio: Se agora a fronteira com o México está aberta, por que morre mais de um trabalhador braçal por dia tentando atravessá-la?
E aos especialistas em direito trabalhista: Por que a MacDonald's e a Wal-Mart proíbem os sindicatos aqui e em todos os países onde operam?
E aos economistas: "Por que, se a economia duplicou nos últimos vinte anos, a maioria dos trabalhadores ganha menos que antes e trabalha mais horas?
Ninguém negava resposta a estes seres estranhos, que continuavam com os seus disparates.
E perguntavam aos responsáveis pela saúde pública: Por que proíbem que as pessoas fumem, quando os automóveis e as fábricas fumam livremente?
E ao general que dirige a guerra contra as drogas: Por que os cárceres estão cheios de drogados e vazios de banqueiros lavadores de narcodólares?
E aos dirigentes do Fundo Monetário e do Banco Mundial: Se este país tem a dívida externa mais alta do planeta, e deve mais que todos os demais, por que os senhores não o obrigam nem a cortar as suas despesas públicas nem a eliminar os seus subsídios?
Será para serem corteses com os vizinhos?
E aos politólogos: "Por que aqueles que aqui governam falam sempre de paz, enquanto este país vende a metade das armas de todas as guerras?
E aos especialistas em meio ambiente: Por que os que aqui governam falam sempre do futuro do mundo, enquanto este país gera a metade da poluição que está a acabar com o futuro do mundo?
Quanto mais explicações recebiam, menos entendiam.
Pouco durou a expedição.
Os extraterrestres começaram sua visita pela potência dominante, e aí terminaram.
A normalidade do poder não estava ao alcance daqueles turistas.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info


terça-feira, 13 de maio de 2008

O MUNDO ESTÁ MUDO

Hora de romper relações com Israel

“Até quando o seqüestro de um soldado israelense poderá justificar o seqüestro da soberania palestina?

Até quando o seqüestro de dois soldados israelenses poderá justificar o seqüestro de todo Líbano?

Até quando continuará correndo sangue para que a força justifique o que o direito nega?


Esta matança de agora, que não é a primeira e nem será, receio, a última, ocorre em silêncio.

O mundo está mudo?

Até quando seguirão soando em sinos de madeira as vozes da indignação?


Destina-se US$ 2,5 bilhões, a cada dia, para os gastos militares.


A miséria e a guerra são filhas do mesmo pai: como alguns deuses cruéis, come os vivos e os mortos.


Até quanto continuaremos aceitando que este mundo enamorado da morte é nosso único mundo possível?”
(Eduardo Galeano).


(Foto: Participantes da unitária, plural e solidária passeata em São Paulo, o domingo dia 6 de agosto de 2006, contra o bárbaro genocídio no Líbano).


“Sobretudo, sejam sempre capazes de se indignar contra qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. Esta é a qualidade mais linda de um revolucionário”. Carta de Ernesto Che Guevara aos seus cinco filhos.


Além da forte indignação humana contra o bárbaro genocídio no Líbano, os mais de 10 mil participantes da unitária, plural e solidária passeata em São Paulo neste domingo, dia 6, apresentaram como proposta concreta a exigência de que o Brasil rompa as relações diplomáticas com o Estado terrorista de Israel.
A cobrança das forças políticas e sociais que organizaram o protesto é plenamente justificada. Afinal, o que ocorre nesta região afronta todas as normas do direito internacional e representa um dos episódios mais tristes de agressão a uma nação soberana e de extermínio de um povo. Parece que os sionistas israelenses desejam repetir, com requintes de crueldade, a triste história do holocausto nazista contra o povo judeu.
Segundo informações oficiais, até o último dia 2 já morreram 200 crianças e 828 adultos libaneses, outros 3,2 mil ficaram feridos e um quarto da população do país – quase um milhão de pessoas – foi desalojado de suas casas pelos intensos bombardeios.
A ofensiva é implacável.
Além dos ataques aéreos, cerca de 10 mil soldados israelenses ocuparam cinco áreas ao sul do Líbano.
Toda a infra-estrutura do Líbano – redes de transmissão de energia,
reservatórios de água,
o aeroporto central,
rodovias e pontes – está sendo alvo da destruição, o que agrava ainda mais a situação deste sofrido povo.
Hospitais estão sem energia elétrica para realizar cirurgias, falta água em várias cidades e não há rotas seguras de fuga.
A devastação é total.
Do lado israelense, em três semanas de combate morreram 37 militares e 19 civis – o que prova a enorme desproporção desta “guerra”.
As justificativas apresentadas pelos nazi-sionistas também são escandalosas.
Alegaram que a criminosa ofensiva decorreu do “seqüestro” de dois soldados israelenses por militantes do Hezbollah, em 12 de julho.
Nunca a captura de tropa inimiga foi desculpa para uma ação desta magnitude.
A versão alardeada na mídia burguesa foi a de que o grupo libanês fez o seqüestro em território de Israel.
Fontes independentes, porém, garantem que o serviço de inteligência militar sionista (Aman) invadiu a região libanesa de Aita-al-Shaab e que seus soldados foram atacados e capturados pelo Hezbollah.
A mesma desculpa serviu como pretexto para a bárbara invasão do território palestino em junho passado.
Após o seqüestro do soldado Gilat Shalit – que o grupo Hamas pretendia trocar por 150 mulheres e 350 menores presos em Israel, sem julgamento –, o Estado terrorista de Israel bombardeou o país, prendeu um terço do Parlamento Palestino e vários ministros (inclusive o seu chanceler, Mahmoud Zahar), ameaçou publicamente assassinar o primeiro-ministro palestino Ismail Haniyeh e ainda anunciou sua pretensão de realizar ataques aéreos e navais contra a Síria, acusada de abrigar líderes do Hamas.
Ou seja: num curto espaço de tempo, os nazi-sionistas agridem o Líbano e a Palestina e ainda ameaçam a Síria e o Irã.
Daí a justa indignação do escritor Eduardo Galeano. “Até quando o seqüestro de um soldado israelense poderá justificar o seqüestro da soberania palestina? Até quando o seqüestro de dois soldados israelenses poderá justificar o seqüestro de todo Líbano? Até quando continuará correndo sangue para que a força justifique o que o direito nega? Esta matança de agora, que não é a primeira e nem será, receio, a última, ocorre em silêncio. O mundo está mudo? Até quando seguirão soando em sinos de madeira as vozes da indignação? Destina-se US$ 2,5 bilhões, a cada dia, para os gastos militares. A miséria e a guerra são filhas do mesmo pai: como alguns deuses cruéis, come os vivos e os mortos. Até quanto continuaremos aceitando que este mundo enamorado da morte é nosso único mundo possível?”.

Marionete dos EUA
Na verdade, a desculpa da “legítima defesa” visa escamotear os planos expansionistas de Israel – e do seu tutor, os EUA.
Como adverte reportagem da Carta Capital, a captura de soldados nunca gerou ações tão destrutivas.
“Em 1985, o governo do Likud trocou 1.150 prisioneiros por três soldados israelenses. Há pouco mais de dois anos, aceitou libertar 430 prisioneiros palestinos e árabes em troca de um empresário e coronel da reserva seqüestrado pelo Hezbollah”.
Além disso, o Exército de Israel sempre se utilizou do seqüestro e de outros métodos bárbaros.
Dias antes do recente ataque à Palestina, ele seqüestrou dois civis de suas casas em Gaza. Pouco antes, assassinou 90 palestinos – entre eles, sete membros de uma família que fazia piquenique na praia, incluindo três crianças e uma mulher grávida.
O pretexto é esfarrapado!

A razão do genocídio atual é que Israel não aceita a viabilização de qualquer acordo nesta região e que os EUA estão perdendo o controle desta área estratégica, rica em petróleo e decisiva no tabuleiro geopolítico mundial.
No momento em que o próprio Hamas discutia a possibilidade de aceitar a existência do Estado de Israel como única forma de viabilizar a paz duradoura, os violentos ataques abalam estas esperanças, atiçam o conflito e fortalecem os planos expansionistas dos nazi-sionistas. Como lembrou o jornal Avante, do Partido Comunista de Portugal, esta pretensão é bastante antiga.
Documento de 1957, elaborado pelo primeiro-ministro David Ben Gourion (1948-63), já pregava a ocupação de territórios palestinos e árabes.

Outro texto mais recente, de julho de 1996, intitulado “ruptura limpa: a nova estratégia para a segurança”, defendia abertamente “a anulação dos acordos de paz de Oslo; a eliminação de Iasser Arafat; a anexação dos territórios palestinos; a derrubada de Saddam Hussein no Iraque para desestabilizar a Síria e o Líbano; o desmantelamento do Iraque; e a utilização de Israel como base complementar do programa dos EUA de guerra das estrelas”.
Como se observa, além de sua obsessiva ambição, Israel sempre serviu aos interesses ianques.
Agora, com a generalização do conflito na região, George Bush usa sua marionete para emplacar o “plano de reestruturação do Oriente Médio”, com a rendição dos países que integram o “eixo do mal”.
Não é para menos que os EUA não aceitam qualquer recuo de Israel nesta ofensiva assassina e rejeitam as propostas de cessar-fogo da ONU.
“Não vejo qualquer interesse na diplomacia se for para voltar ao status quo anterior entre Israel e Líbano. Penso que isso seria um erro. O que nós estamos presenciando, de certa forma, é um começo, são as dores do parto de um novo Oriente Médio”, explicitou a cínica e abjeta serial killer Condoleezza Rice, secretária de Estado dos EUA.
O plano expansionista da “reestruturação” já está em curso, incluindo o “porrete diplomático”, o envio de armas ianques de última geração a Israel e ainda o veneno ideológico da mídia burguesa.
Líbano e Palestina já foram covardemente agredidos; em 28 de junho, aviões israelenses invadiram o espaço aéreo da Síria, inclusive sobre a área do palácio presidencial de Bashar Assad; já o Iraque está sob ocupação das tropas ianques; e o Irã sofre todo tipo de provocações.

A pressão internacionalista
Diante desta escalada, a reação mundial está crescendo, embora ainda muito aquém das necessidades.
As manifestações de repúdio à violência nazi-sionista são maiores na própria região.
Já na Europa ocorreram passeatas e atos em vários países.
Até em Israel, grupos pacifistas exigem o cessar fogo e a retomada das negociações de paz. Na América Latina, a ação mais contundente foi tomada pelo governo venezuelano.
O presidente Hugo Chávez ordenou a retirada do seu embaixador em Israel, “porque causa indignação ver como esse Estado continua bombardeando e esquartejando inocentes com os aviões gringos que eles têm. Como se explica que o mundo olhe isso de braços cruzados, que não faça nada para frear este horror?”.
O governo de Cuba também emitiu duro comunicado exigindo o imediato cessar-fogo. Segundo sua nota oficial, “a responsabilidade por esta selvagem agressão contra a população civil libanesa, que constitui um ato de terrorismo de Estado, é de quem apóia econômica e militarmente o agressor e de quem atua como vassalos servis e cúmplices. O governo americano, com o seu veto, impediu o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas de atuar. A sua pública e criminosa oposição à exigência de um cessar-fogo abortou outras iniciativas de paz. A União Européia, com raras exceções, serve de cúmplice e aceita as brandas declarações impostas pelo Império do outro lado de Atlântico”.
Já o governo Lula enviou carta ao secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Annan, na qual manifesta explícita condenação aos ataques de Israel.
“O Brasil se sente diretamente atingido pela violência contra civis na região, que já vitimou sete cidadãos brasileiros, inclusive crianças. Repudiamos o terrorismo, não importa sob que justificativa, mas não podemos deixar de condenar, nos termos mais veementes, a reação desproporcional e o uso excessivo da força que tem resultado na morte de grande número de civis, inclusive mulheres e crianças, e na destruição da infra-estrutura do Líbano”, afirma o comunicado.
O Mercosul também rejeitou a assinatura de um tratado de “livre comércio” com Israel.
Apesar de positiva, a manifestação do governo Lula é insuficiente diante da radicalização do genocídio.
A proposta de retirar o embaixador brasileiro de Israel, num sinal de rompimento das relações diplomáticas, já seria cabível.
Afinal, o Estado sionista já desrespeitou 46 resoluções da ONU condenando Israel.
“Até quando o governo israelense exercerá o privilégio de ser surdo?
As Nações Unidas recomendam, mas não decidem.
Quando decide, a Casa Branca impede que decida, porque tem direito de veto.
A Casa Branca vetou, no Conselho de Segurança, 40 resoluções que condenavam Israel.
Até quando as Nações Unidas continuarão atuando como se fossem o outro nome dos Estados Unidos?”, indaga Eduardo Galeano.

Segundo Marjorie Cohn, integrante da Associação de Juristas dos EUA, a ação de Israel no Líbano é uma flagrante violação de todas as leis de guerra, incluindo a Quinta Convenção de Haia, de 1907 (artigo 50), a Quarta Convenção de Genebra sobre a proteção de civis em tempo de confrontos, de 1949 (artigo 33) e o Protocolo I de 1977, sobre a proteção de vítimas de conflitos internacionais armados (artigo 75).
Mais do que as normas jurídicas, as fotos de centenas de crianças destroçadas pelos bombardeios, publicadas no Portal Vermelho, reclamam uma ação urgente contra o Estado terrorista e bandido de Israel.

No atual conflito, os sionistas nem sequer respeitam o direito brasileiro de retirar os seus compatriotas da região em guerra.
O próprio ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, queixou-se à mídia de que o governo de Israel não ofereceu qualquer garantia para que os brasileiros e seus descendentes atravessem a fronteira em segurança, o que tem criado enormes dificuldades ao transporte. Diante destes fatos, José Reinaldo de Carvalho, secretário de relações internacionais do PCdoB, avalia que se “justifica que cresça o clamor pela retirada de nossa embaixada daquele país”.
Esse foi exatamente o clamor dos presentes na passeata em São Paulo, que deve incentivar uma massiva campanha de solidariedade no Brasil inteiro.

Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e autor do livro “As encruzilhadas do sindicalismo” (Editora Anita Garibaldi, 2ª edição).
[Artigo enviado a www.galizacig.com polo autor, 07/08/2006]
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